Zé Maria

Atualizado: 25 de mar.

Agora ele é até nome de teatro. Teatro que ele mesmo um dia criou. Nós, do grupo de teatro do Cefet, távamos lá na noite do lançamento da pedra inaugural do Teatro da Classe, hoje Teatro José Maria Santos.


Foi uma festa simples, regada à cerveja e linguiça. Simples, como era o Zé e contando com a presença dos mais famosos e icônicos produtores, diretores, técnicos e atores do teatro paranaense da época, assim como políticos e as figurinhas carimbadas de Curitiba e um bando de Zé Ninguém, como eu e a turma do teatro.


Pra nós ele era só o Zé. O Zé não era fácil, mas não era difícil gostar dele. Chegava nos ensaios sempre muito perfumado e de bom humor. Parecia gostar de tar lá.


Um dia chegava grisalho, aparentando uns oitenta anos, outro dia, com cabelo acajú, que o deixava com a aparência de sessenta. Noutro dia, meio louro, era um quarentão.

Boa Noite, Fernanda Montenegro! Dizia pra uma. Fala, Paulo Autran! Dizia pra outro e assim ia, com os olhos azuis esbugalhados, segurando o riso com a boca meio torta pro lado. Era um ritual, pra que saíssemos do clima de simples alunos do Cefet e entrássemos no espirito mágico do teatro.


Antes de começar os ensaios de uma peça, havia a fase de leitura pra escolha do texto. Escolhida a peça, reescrevíamos todas as falas. Líamos, relíamos, trelíamos. Cortávamos e enxertávamos palavras, frases, páginas, até lapidarmos tudo.


Nessas noites de leituras sem fim, às vezes metidos nas mais nobres salas de reuniões da alta cúpula do Cefet, com aquelas mesas imensas, sentíamos que os personagens iam ganhando rostos e a coisa ganhando forma.


A porca torcia o rabo mesmo, na hora dos ensaios. Hoje vejo que como era difícil pra nós, um bando de adolescentes render tudo o que o Zé queria. E pra ele, por outro lado, como era difícil se contentar com pouco.


Ele ficava nervoso, raivoso, enfurecido, espumava, soltava fogo e aí, cadeiras voavam pelo palco.


Porra pra ele era vírgula e nessas horas ele, como uma metralhadora giratória, xingava e brigava muito com todos. Menos comigo. Ele olhava bem nos meus olhos e dizia: porra meu querido, não consigo brigar com você!


Passado o sufoco do ensaio, saíamos depois pra descontrair e comer pizza. Descontraído mesmo ele ficava, paradoxalmente, nas noites de apresentação. Parecia uma criança. Seus olhos brilhavam, chegava a incomodar, tirar nossa concentração.


É, a vida não tem mesmo muita lógica. Uma grande evidência disso, é tê-lo feito sair de cena tão longe do fim do espetáculo. Saudade Zé…


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