Tribunal do Júri

Há alguns anos, poucos dias antes do Natal, a senhora Neide Bittencourt, mulher de grande coração, talvez por ser mineira, uma pessoa luminosa ou apenas por ser próximo à especial data comemorativa, gentilmente ofereceu uma paçoca virtual ao menino da foto, que agora, com o passar de décadas, cresceu.


Em vez deste agradecer, o que seria o esperado, afinal era véspera da véspera de Natal, o que ele fez? Reclamou porque não era Paçoquita, a marca de sua preferência.


Que monstro, senhoras e senhores. Que monstro... É óbvio que ele deve condenado.


Sejamos justos, contudo, afinal estamos no período natalino, onde tantos monstros como ele recebem indultos.


Vamos, portanto, tentar compreender onde, em que lugar, nasceu este vil caráter, pra então podermos julgá-lo e se for o caso: contená-lo, bastoná-lo, enjaulá-lo ou apenas tornozeleirá-lo em sua varanda.


Foi apurado que, como filho mais novo de um casal que já tinha cinco filhos, é sabido no hall familiar, que o caçula sempre foi um piá mimado.


Se analisarmos, ele é de fato, chatinho. Há registros, senhoras e senhores, que não é de hoje. Familiares afirmam que quando contrariado, ainda petiz, chutava, sem dó nem piedade, a canela de todos com suas botinhas Dr. Scholl's, compradas na Rua Riachuelo.


Parentes próximos garantem que, depois do período das tais botas ortopédicas, os sapatos novos do piá, tinham que ser comprados exclusivamente na Cinderela, na Ébano Pereira, ao lado das Lojas Americanas.


Na hora da comida, fosse onde fosse, o mancebo só comia o que viesse da panela dele. Havendo, inclusive, a necessidade de viajar com tal aparato, já que o ato de cozimento seria conferido pelo pequeno réu.


Pra dormir, ele só dormia com sua famosa Cobertinha de Quadros, aveludada e macia, que mais tarde foi utilizada pela mãe do infrator como base pra passar roupas.


Quando a família tava fazendo visitas a alguém, o que na época era trivial, o capetinha só tomava café com leite, deixando o anfitrião numa saia justa, caso não dispusesse do tal item lácteo.


Conta-se que quando doente, mais precisamente acometido de Hepatite, a vizinha do outro lado da rua, aquela dos xaxins com orquídeas, cujo nome será mantido em segredo, tida como fofoqueira e beijoqueira, fez, num gesto gentil como dona Neide, aqui devidamente nomeada, uma visita ao pequeno enfermo.


Com a intensão de agradar ao doente, a nobre senhora levou-lhe um presente: um boneco do Topo Gigio, personagem que tava em voga na ocasião.


O fato é que quando o amarelado menino abriu o pacote ofertado pela tal senhora, depois de receber muitos beijos em suas bochechas, e constatar que era uma versão paraguaia do personagem, com cada parte do corpo de uma cor diferente e de plástico semi transparente, o problema hepático intensificou-se, deixando-o meio verde de desgosto.


O remédio encontrado pelos pais do garoto foi irem, às pressas, à loja Prosdócimo, sita na Praça Tiradentes e voltarem de lá, com a versão original do boneco fabricado pela marca Estrela, que tinha textura e aroma únicos e passou a ser o companheiro do menino nos anos seguintes.


Estamos portanto, senhoras e senhores, diante do nascimento de um monstro, que pode sim, representar uma ameaça à sociedade, com suas exigências descabidas e preferências particulares, eletivas, seletivas e totalitárias, totalmente fora da atual sintonia universal onde reina o desapego, o veganismo, a fraternidade e a sustentabilidade.


A instrução está encerrada. As provas foram produzidas e apresentadas e agora clamam por uma decisão.


Está aberto aqui espaço pra alegações e debates, a fim de que tenhamos, o quanto antes, uma sentença proferida. E tenho dito!


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