Trezentos

A morte prematura do tio Vicente, quando eu tinha 14 anos e ele, menos da idade que tenho agora, foi a primeira experiência com perda que eu e muitos de minha família tivemos.


Ninguém deveria morrer, muito menos o tio Vicente. Ainda mais daquela forma estúpida, logo após o casamento do meu irmão mais velho, onde ele era o padrinho de honra, com a vida toda pela frente e assim, sem avisar ninguém.


Vicente Galvão, irmão mais novo de minha mãe, era um homem catalisador, agregador, carismático, presente e acima de tudo, com o qual todos podiam contar e contavam.


Quando ele chegava, vindo do interior buzinando seu majestoso Opala bordô, tava anunciada a temporada de festa em minha casa e em nossas vidas. Eram conversas, passeios, viagens, presentes, piadas e dias que passavam de um jeito mais leve.


Ele gostava de caçar paca aos domingos, de jogar pôquer toda semana, tocar bandolim de vez em quando e jogar conversa fora sempre. Era um gozador.


Nas tardes ensolaradas e desertas da interiorana Siqueira Campos, nos anos setenta, ficava escondido em sua janela. Chamava em falsete: Jorge, Jorge... o vizinho da quitanda em frente, saía na porta e olhava de um lado pro outro sem ver ninguém. A mulher dele vinha em seguida, com a vassoura na mão, também desconfiada... Sozinho, atrás da cortina, tio Vicente se matava de rir.


Com sua morte, num acidente próximo à Vila Velha, a cidade parou, triste, num luto de chuva. Lembro do barro sendo pisoteado a caminho do cemitério e o pensamento pesado, revoltado e acima de tudo, triste.


Essa moto da foto, ganhei dele em uma de suas últimas visitas. Ele me viu namorando a bichinha na vitrine da loja Lembranças do Paraná e sem perguntar mandou o vendedor embrulhar pra presente.

Nunca tive coragem de brincar com ela pois só tê-la, já me parecia o suficiente. Era meu talismã. Fazia-me lembrar de alguém que é muito importante pra mim. Há algum tempo, descobri a caixa vazia num armário, onde nunca a guardei.


Certa vez, em uma de suas visitas em nossa casa, tio Vicente resolveu comprar pêssegos de um vendedor que passava na rua. Não foram dez, vinte ou cem pêssegos. Comprou uma caixa com trezentos pêssegos.


Todos falavam, o Vicente tá louco, imagina, trezentos pêssegos! Pois ele não tava, os pêssegos eram tão bons e a quantidade de gente por ali era tamanha que não é que a caixa chegou ao fim?


A história dos trezentos pêssegos me acompanha até hoje. Todas as coisas nesta vida, sejam elas boas ou más, que parecem infindáveis e absolutas, em um determinado momento chegam ao fim, assim como os trezentos pêssegos e a moto que, por muito tempo, foi minha.


Felipe, meu filho, sabendo de minha frustração diante da caixinha vazia, foi à rede e conseguiu uma reposição à minha lembrança e ainda outras que formaram uma coleção inteira, iniciando ali, naquela surpresa, uma nova história, mas isso já são outros trezentos...


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