Tia Quinca

Tudo nessa vida tem sua hora de acontecer. Ir pra praia naquele tempo não era nada fácil. Sem estarmos casados, sem carro e sem dinheiro, apenas com muita vontade de estar lá, pra fazer a hora, não esperar acontecer.


Pegávamos o ônibus da Lapeana na Rodoferroviária e descíamos na Garuva. Lá, enquanto esperávamos a baldeação, aproveitávamos pra visitar Tia Matilde, irmã da Vó Romana. A casa dela ficava do outro lado da rua e nela, a encontrávamos do mesmo jeito peculiar, sempre sentada encolhida com as pernas dobradas sobre o sofá.


Uma conversa rápida com Tia Matilde e já tava na hora de pegarmos o outro ônibus vindo de Joinville, que nos levaria à praia.


Depois de alguns quilômetros a caminho de Guaratuba, o lotação lotado, virava à direita e seguia então, toda vida, toda vida, por uma estrada, sem asfalto, ruim em dias de sol, com muito pó e terrível em dias de chuva, com muito barro, parando a cada quinhentos metros pra subir um galo ou descer um papagaio, até chegar em Itapema do Norte.


Como todo o paraíso que se preze, chegar em Itapema do Norte, exigia dos pecadores, mas valia cada solavanco, cada curva, cada parada.

Metade da praia era de moradores de Joinville e destes, um terço era parente de Raquel. Quando Vó Romana, ainda muito nova se casou, Vô Lalau, já tinha alguns filhos. Quinca era a filha mais velha dele.


A nossa anfitriã, na maioria das vezes, era Tia Quinca e como era bom ser hóspede de Tia Quinca. Uma mulher forte e boa, apesar das peças que a vida lhe pregava.

Sua casa era longe da praia. Rústica, simples e acolhedora, como deve ser uma casa na praia. Tanto no chão, quanto nas paredes, grossas e antigas tábuas, que pelas diferentes cores, já tinham feito parte de outras casas no passado.


Na parte de trás, uma gostosa varanda, que em sua sombra abrigava uma grande mesa, que Tia Quinca, sempre alegre e animada, gostava de deixar repleta de sua deliciosa comida.


Na família de Raquel, sempre que há uma grande diversidade de pratos sobre a mesa, dizem: oba, almoço da Tia Quinca! E lá era assim: pratos e mais pratos, tipo aquelas festas de Natal, que você não sabe o que pegar.


Itapema do Norte naquela época era agreste como o Mangue Seco. Andávamos muito até chegar à praia, indo pela rua principal e depois por um lindo caminho, todo arborizado, que passava ao largo do cemitério, apelidado de Rua dos Prazeres,


Lembro da praia: linda e intocada, com muitos pescadores e decorada por três grandes conjuntos de pedras, às quais são chamadas de Primeira, Segunda e Terceira Pedra. Quando um casal sumia, todos diziam que eles tinham ido em busca da Quarta Pedra...


Uma vez fomos lá pro carnaval e naquele ano a data coincidiu com meu aniversário, no comecinho de março.

Chegamos da praia, sentei num dos bancos da varanda e encostei com vontade, as costas na parede de tábuas. Levei um baita susto, pois tava pelando. Disse: Tia Quinca, o que que a senhora fez no fogão, que a parede ainda tá tão quente? Ah, tá quente, é? É uns pães que tô assando, filho...


Era um bolo pra mim. Uma festa surpresa que ela preparou. Tirando as, tradicionalmente, preparadas no escritório, foi a única festa surpresa que tive na vida. Era um bolo simples e delicioso. Ela se aproximou, com uma cara marota e um pacote simples na mão.


Um presente pra mim? Abri e não acreditei. Assim que chegamos de Curitiba, elogiei sua camiseta Hering vermelha, falei que ficava muito bem nela e que sempre quis ter uma csmiseta bem colorida como aquela.


Não teve dúvida: a camiseta era nova. Ela botou no tanque, a lavou, passou bem bonitinho e embrulhou como um presente pra mim. Usei tanto aquela camiseta até ficar puída, pois sempre me lembrava dela e de seu carinho pra comigo.


Esses tempos voltamos àquela praia. Foi difícil reconhecê-la. O tempo foi atroz com a coitada. Trouxe umas pitadas de asfalto e benfeitorias, uma xícara de construções medonhas, duas de poluição visual e sonora e acabou tirando da receita, toda a poesia que havia no lugar.


Eu gostava muito daqueles tempos e de Tia Quinca. Penso que ela gostava de mim também. Ela fazia me sentir à vontade em sua casa e sempre queria saber quando voltaríamos.


Eu, que nem era ainda da família, era tratado, por ela, e por muitos, como se fizesse, e há muito tempo, parte dela. Saudades de tudo e de todos.


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