Tia Pufa

Os espanhóis, normalmente turrões e teimosos, são também, paradoxalmente, donos de um imenso coração mole.


Quando criança, algumas vezes fomos visitar uma tia do meu pai, na pequena e, naquela época, longínqua Quatiguá, uma simpática e bucólica cidadezinha no interior do estado.


As visitas geralmente aconteciam num domingo à tarde, hora boa pra um enterro. Lembro do triste repicar do sino anunciando missa de corpo presente na matriz da cidade, o que aumentava consideravelmente a tristezura domingueira.


A casa de tia Pura, a quem chamávamos de tia Pufa, ficava na rua do paletó, conhecida assim por ter casas só de um lado, já que ficava ao longo da ferrovia, próxima à estação.

Assim que chegávamos na minúscula e aconchegante casa, a velha espanhola da região de Granada, numa mistura de alegria, emoção e agradecimento, começava a chorar.


Não era uma leve fungadinha, um choro baixinho e sutil, de lágrima a correr pelo cantinho do olhar. Nada, era um chororô e conforme íamos entrando ela ia nos abraçando, beijando e chorando cada vez mais.


Depois, enquanto a conversava se desenvolvia, ela dava um suspiro e volta e meia, voltava a chorar e pra conter tantas lágrimas, usava um providencial pano branco dependurado no ombro.


A casa era um primor. O chão brilhava. Nas cristaleiras, lembranças, objetos, memórias e fotos daqueles que um dia, a visitaram.


Com certeza, todos aqueles objetos eram, na plenitude de sua solidão, motivo de mais choro.


No fundo, era divertido. A visita rendia boas risadas por muito tempo, lembrando do jeito insólito de tia Pufa.


Como um bom espanhol, pelo menos em parte, tenho minhas turrices, teimosias e claro, uma certa moleza no coração.


A cristaleira aqui de casa já tem várias lembranças das coisas que vão acontecendo em nossas vidas. Logo, de certo, começarão as fotos. As lágrimas e o fatídico pano no pescoço, espero que demore ainda muito tempo pra isso acontecer. Por enquanto, prefiro o riso.



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