Tia Pedra

Minha família, por ter um lado espanhol, tem algumas coisas curiosas, como alguns nomes diferentes. Pedro não é um nome incomum. Pedra, já é. Fala-se Pêdra e na minha família são três: Minha tia Pedra, irmã de meu pai, sua filha Pedra, que todos conhecem por Pedrinha e minha outra prima Pedra, que é conhecida por Pedra mesmo, filha do tio Tonico, o irmão mais velho do meu pai.


Tia Pedra é uma mulher encantadora, de olhos vivos. Uma mulher cuja vida, daria um livro, adaptado a uma minissérie.


Há alguns anos, seu filho Wilson, que todos conhecem por Vilson, a levou numa comemoração beneficente de Dia das Mães em Piraquara, cidade onde ele mora.


Quando chegou pra buscá-la, no Santa Quitéria, pediu pra que ela levasse no colo, um arranjo de flores. Disse que seria sorteado. Ela então, levou consigo a linda prenda pra festa.


Lá, no meio da agitação, Wilson subiu no palco e pedindo a palavra, leu um texto que havia escrito e que era mais ou menos assim:


"Numa pacata cidadezinha do interior do Paraná, vivia uma jovem mulher que aos vinte e um anos ficou viúva com um filho de apenas dois anos e grávida de três meses, Wilson e Pedrinha.


O destino foi cruel com aquela jovem. Analfabeta, o pouco que sabia ler, aprendeu com seu irmão mais velho, nunca foi à escola, pois o pai não lhe permitia.


Vivendo com uma pequena pensão, deixada pelo marido. Mudou-se pra casa dos pais. Tinha que sobreviver e pra criar seus dois filhos, foi à luta, costurando, bordando, tricotando e fazendo colchas de retalhos. Ela não desanimou.


Aos vinte e cinco anos, por uma trama do destino, conheceu um viúvo de Curitiba que estava de férias naquela cidadezinha.


Ele era muito rico. Rico de filhos. Tinha cinco. O mais velho, Mário, com quatorze anos, Antonio, Carlos, Beto e o mais novo, Paulo, com apenas dois anos.


Após receber o pedido de casamento daquele senhor, ela pensou, relutou e viu ali, uma possibilidade de um futuro melhor pro seu filho e sua filha.


Seria uma troca entre os dois viúvos e assim resolveram unir as duas famílias num casamento com cerimônia religiosa muito simples.


Naquele mesmo dia vieram pra Curitiba e foram morar na casa antiga, na esquina da Avenida Batel com Francisco Rocha, que foi restaurada.


A família ficou grande e logo, maior ainda, pois os dois não perderam tempo e providenciaram mais dois filhos em comum, Sérgio e Jorge.


Que coragem. Ela, agora com vinte e nove anos, tinha nove filhos pra criar e educar.


Os anos passaram, a turma foi crescendo. Viviam em harmonia e logo começaram a casar, um após o outro. A família acabou ficando pequena e os dois viúvos solitários, formavam um belo casal.


Aos sessenta e dois anos, uma senhora respeitada, orgulhosa de sua missão quase cumprida, os filhos todos criados, cada um com uma profissão e vinte netos, o destino lhe pregou mais uma peça: Perdeu Sérgio, um filho jovem com trinta e três anos, casado, dentista conceituado e querido por todos.


Ela, sentindo muito esta perda, uniu-se ainda mais ao seu companheiro, pois tinham muita fé em Deus.


Aos sessenta e nove anos, Deus colocaria mais uma prova em sua vida: Perdeu bruscamente seu companheiro com o qual viveu quarenta e dois anos.


Mais uma vez viúva, não se desesperou, pois sempre com muita fé em Deus, continuou sua vida, agora morando sozinha por opção, curtindo seus quatorze bisnetos e tricotando.


Aos setenta anos queria mais ainda da vida. Começou a ser alfabetizada em casa, com uma professora particular muito especial, Carmen, sua sobrinha.


Agora sabe ler e escrever, chegando a redigir cartas a seus filhos e netos.


Hoje, aos oitenta e nove anos está integrada na creche do bairro. Pratica hidroginástica, viaja com a turma da terceira idade e com os filhos.


Numa das viagens chegou a descer num Toboágua de 400 m de altura. Que valentia, que coragem!


Tem sonhos: Conhecer Jerusalém e quem sabe, ser tataravó.


Para esta mulher corajosa, batalhadora, de garra, fibra, elétrica, bisavó, avó e super mãe, tenho muito orgulho de dizer: Minha mãe, eu te amo muito! Obrigado!"


Tia Pedra compreendeu que Dia das Mães era apenas um pretexto e que a festa e as flores eram pra ela.


Após esta data, desta homenagem, perdeu mais dois filhos. Falar disso faz com que seus olhos fiquem brilhantes e seu olhar perdido.


Esta mulher, forte como uma pedra, então, dá uma risada, joga a cabeça pra trás e muda logo de assunto. Uma grande mulher. Uma vida pra ser admirada.





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