Tia Júlia

Quando minha avó materna se casou com meu avô, ele era viúvo e já chegou no matrimônio com alguns filhos na bagagem. Isso fez com que minha mãe nascesse com vários meio-irmãos e nós termos vários meio-tios e meio-primos.


Tia Júlia era uma dessas meia-irmãs de minha mãe. Ela era simples ao extremo, andava descalça, desdentada, com um lenço branco escondendo o cabelo e lavava roupa pra fora, levando a troxa de roupas no alto da cabeça.


Tia Júlia morava no bairro do Cruzeiro, em Siqueira Campos, interior do Paraná. Naquela época, um bairro muito simples, afastado e a meio caminho do cemitério.


Lembro que a casa de tia Júlia era de uma simplicidade realmente muito grande.


Ao contrário da casa de tia Isabel, também meia-irmã de minha mãe, mas que sempre foi muito próxima a nós, a casa não era um primor de limpeza.


Ficava na beira da rua de terra, com largas fendas entre as grossas madeiras das paredes e do assoalho, que contribuía pra que a sensação de sujeira aumentasse.


O tereno era grande, com muita terra, poeira e pouca coisa plantada.


Lá no fundo, uma outra casinha de pau a pique, ainda muito mais simples que a da frente, completava o quadro.


Meu filho, há dois anos, arrumou provisoriamente um gatinho meio-traumatizado com a vida. Disse eu, naquela época, que o tal gato deveria ter se chamado Joãozinho.


Tia Júlia tinha alguns filhos. Quando chegávamos e meus meio-primos escutavam o barulho do carro parando lá na frente, saiam correndo pra casa do fundo do terreno e se escondiam embaixo da cama.


Lembro que um deles se chamava Joãozinho. Quando o carro parava, descíamos também correndo direto pra casa de trás, pra caçarmos o tal Joãozinho, embaixo da cama, pra podermos então brincar.


O tal gatinho realmente me lembrava o Joãozinho, a cama de palha, a casa de pau a pique, o bairro do Cruzeiro, a tia Júlia e tudo de bom que vivi com meus parentes, quando, eu, um piá da capital, passava as férias em minha terra natal, no norte pioneiro.


Cada ida ao quarto do Felipe e cada pulo do gato pra baixo da cama, era uma ida ao Cruzeiro de minha infância.


Hoje, quando o Tobias nos vê, já não corre pra baixo da cama, mas também até agora, não corre pra vir no colo. Não sei se isso acontecerá um dia...


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