Seu Octacílio

Atualizado: 12 de mar.


Há momentos-chave na construção de nossa vida. São esquinas que topamos e decidimos se continuamos reto ou se viramos pra um dos lados.


Você que ficar rico Luiz Renato? Foi o que me perguntou Octacílio Meirelles, com seu sorriso franco e cativante e imensos e claros olhos azuis, brilhando na minha cara, naquela manhã.


Estávamos no Rua XV-Barigui lotado e senti os sacolejos do ônibus aumentarem ainda mais diante daquela pergunta à queima roupa...


Não fiquei rico, mas depois daquela conversa minha vida, tomou outro rumo, dobrou a esquina e entrou numa curva biorrítmica ascendente.


Seu Octacílio era joalheiro e acima de tudo, um excelente vendedor. O pai de Guilherme e Leonardo Meirelles, meus amigos e irmãos metralhas da infância, conhecia bem o mercado e disse que este estava carente de gente criativa.


Sabia de um punhado de lojas e vitrines sedentas por alguém que se dispusesse a trabalhar com vontade.


A tal riqueza do enunciado, não era questão de sorte e sim, de trabalho. Foi assim que há exatos trinta e três anos, ainda sem ter terminado a faculdade, arrumei um sócio, comecei a trabalhar por conta própria e até hoje estou nessa lida.


No começo, Seu Octacílio falava pra eu ir a uma determinada loja. Eu ia lá incógnito, olhava, analisava e conversava com ele, expondo minha opinião sobre a tal loja e o que ela precisava e o que estava ruim.


Quando ele retornava lá, explicava que a pedido dele um profissional esteve analisando e que a mesma precisava de uma revitalização.


Acreditando na nossa sociedade, guardava a parte devida, mas nunca conseguia dele, sua atenção, um momento pra conversarmos sobre.


O trabalho foi aumentando e outros foram aparecendo independente do meu sócio. Aquela situação me incomodava e só foi esclarecida quando um dia finalmente consegui colocá-lo contra a parede, pedindo uma explicação.


Seu Octacílio, então mais uma vez com seus olhos azuis brilhantes e seu sorriso franco disse: Luiz Renato, não há sociedade nenhuma. Você não me deve nada. Fiz isso só pra te ajudar. O dinheiro é todo seu.


Octacílio Meirelles partiu há alguns anos, próximo do Natal, após vencer um curso de psicologia e perder a luta contra um câncer. Era um homem visionário e correto no que fazia e acreditava.


Numa coisa porém, ele estava errado. Eu devo uma coisa a ele. Numa esquina mágica de duas curvas biorrítmicas, ele plantou a semente do meu trabalho no mundo e a regou.


Devo a ele meu eterno agradecimento. O mundo dá suas voltas e esses tempos, Leonardo, seu filho, me procurou pra virarmos juntos uma outra esquina. Claro que aceitei na hora e novamente minha vida deu uma guinada. Coincidência?



Foto ilustrativa do meu amigo Washington Takeuchi. Edifício Latife Hamdar, na esquina da Rua Riachuelo com a Praça Generoso Marques, num típico dia de chuva em Curitiba.


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