Seletivo

Andar no Rua XV-Barigui não era a melhor coisa do mundo, mas também não era a pior. Lá dentro todos se encontravam, conversavam e, como numa novela das seis, todos se conheciam.


Havia naquela época, entretanto, um pecado muito bom de se cometer: andar de Seletivo. Era algo realmente esnobe, pedante, boçal e como já dizia o próprio nome, seletivo.


Mas como era bom! A gente se sentia como se pertencesse à Câmara dos Lordes. O próprio motorista dando o troco, de uma caixinha displicentemente colocada meio de lado, como se dissesse: dinheiro não é importante...


Os bancos, com almofadas xadrez individuais nos assentos, ficavam lado a lado, mas não totalmente. Havia um certo ângulo entre eles, que dava mais sofisticação no lotação. Todos sentados sobre o mesmo tartã, mas sem conversar.


Havia música no ar, e música de qualidade, o que até então era possível apenas em casa.


A campainha do coletivo era um mistério: oculta nas barras verticais cromadas, era um botão mínimo, que somente um connoisseur sabia onde ficava a porcaria daquela campainha.


Andar de Seletivo era muito bom e claro, muito caro. Uma regalia, especial pra uma grande necessidade ou pra uma pequena mordomia.


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