Segundo Plano

Dona Christine Fay, que infelizmente partiu há alguns anos, mãe dos meus amigos Júlio e Estefano, contou-nos certa vez, que quando menina, na Alemanha, onde havia nascido, foi com sua mãe na ópera, assistir Aida, de Verdi.


Imperava aquele ambiente de pompa e silencio, digno de um espetáculo encenado, quando ela começou a rir sem parar. O motivo de tamanha ousadia era que ela havia reparado que os soldados egípcios que marchavam atravessando o palco no fundo, numa marcha sem fim, eram sempre os mesmos.


Os soldados passavam impávidos, de queixo no alto marchando solenes e quando chegavam do outro lado, corriam por trás do cenário, pra passarem pelo palco, marchando novamente.


O que ocorreu com dona Christine poderia muito bem ter acontecido comigo. Gosto do espetáculo, do todo, mas me concentro naquilo que ninguém bota reparo, nos detalhes no segundo plano.


Quando assisto a um filme, presto atenção no cenário, na locação, na iluminação, nos figurinos, nas carros, nos reflexos, nos ângulos, nos diálogos, e até, de vez em quando, na história que tá sendo contada.


Não é só no que vejo, que boto reparo, no que ouço também. Gosto das trilhas sonoras dos filmes, mas não só do tema principal, gosto das músicas incidentais, do sons e até do barulho dos passos.


Quando vou a um show, é claro que admiro o astro principal, o motivo de estar ali, mas não tiro os olhos dos músicos, dos instrumentos, da troca de olhares e principalmente do malabarismo do percussionista, que ora apita alguma coisa e ora bate num objeto estranho qualquer.


Quando ouço música acontece o mesmo: ouvido nos delalhes. Acordes, backing vocal, scat singing, música incidental e referências. Tudo isso teima em chamar minha atenção.


Assim como dona Christine na ópera, vejo, ouço e acho graça em coisas que a maioria das pessoas não veem, não ouvem e não acham motivo pra rir. Como minha mãe dizia, Deus tá nos detalhes...


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