Renascimentos
Renato. Nome de origem latina. Em português, espanhol, italiano e até no francês René, significa nascido de novo.
Certa manhã, caminhava eu, pela Westphalen, quando senti um sopro próximo ao meu rosto, vindo de cima pra baixo.
Logo após a suave brisa, escutei um forte estrondo nos paralelepípedos da calçada à minha frente, tão concreto, que tropecei nele.
Era um pesado fardo de jornal velho, que uma simpática senhorinha tava entregando pra um carrinheiro. Ela achou que a melhor maneira pra entregá-lo, era defenestrando-o.
Por poucos centímetros, o pacote não me acertou a cachola. Já que, apesar do susto, eu permanecia vivo, ela aproveitou pra dizer: desculpe moço, joguei sem pensar...
Por alguns centímetros, centésimos de segundo ou meio passo, minha existência não acabou de vez, ali naquela calçada mal pavimentada.
Essa foi a primeira vez que vi a cara da morte. Há algum tempo, houve uma segunda.
Vinha eu, trafegando tranquilamente por uma rua calma perto de casa, no belo e pacato bairro de Santa Felicidade, quando vi Fulano dobrando uma esquina, correndo muito e de um jeito muito suspeito.
Botei atenção e vi que Beltrano o perseguia com uma garrucha na mão e pior, atirando no primeiro.
Na vida real e em cores, um tiro soa pior que num filme noir. É um estampido abafado e incômodo. Fulano também tava armado. Se virasse pra trás e atirasse, atiraria exatamente em minha direção.
Dobrei a esquina, pra sair da linha de tiro, quando vi Cicrano, também armado e correndo muito, vindo justamente da direção em que eu tava indo, guardando uma pistola na bermuda.
Eu não, mas o carro morreu na hora. Rapidamente o ressuscitei e saí dali, sem a mínima curiosidade em assistir a matinê.
O beco era sem saída. Vi um homem tranquilamente lavando o carro e perguntei se ele viu o que tava acontecendo. Ele disse que sim, que eram policiais à paisana perseguindo um ladrão de carros.
Dei um tempo e encontrei outros motoristas que tiveram a mesma ideia que eu. Quando saí dali, vi Fulano deitado no chão, de barriga pra baixo, com Sicrano e Beltrano sobre ele.
Vi dois carros batidos e abandonados na rua, que desconfiei, foi como eles foram parar ali, naquele lugar improvável e que de fato, um fio muito tênue nos mantém por aqui.
Espero que não tenha acabado minha significância. Se necessário, mudo meu nome pra Trinato, Tetranato ou quem sabe, Enenato e assim, resolva de vez la question...
