Quarto de Despensa

Atualizado: 1 de jun. de 2021

Depois de anos em reforma, quando nossa casa no Seminário finalmente ficou pronta, bonita, moderna, com janelões imensos, tacos com sinteco e porta diamante, um encanto, meu pai teve que vendê-la pra poder comprar a casa da panificadora que tava à venda e assim garantir o sustento da família.


Atravessamos a rua e fomos morar numa casa velha, mas charmosa, espaçosa, luminosa, com quintal, pomar, porão, sótão e tudo mais que um guri podia querer.


Pra mim, coube a despensa. Era minúscula e a pintura das paredes soltava bijus. Aproveitei a deixa pra grafitar as paredes à moda de um piá de onze anos nos anos setenta: Pato Donald, Mickey, Pateta, Huguinho, Zezinho, Luizinho, Mônica, Cebolinha e Cascão. Tavam todos lá.


Primeiro com lápis, depois com nanquim colorido e por último, contornos pretos, que confesso, escorreram um pouco, em alguns pontos.


Lembro que eu e todos, que iam vistá-lo, como se fosse uma galeria, gostamos do resultado. Meu quarto virou um dos pontos turísticos da casa.


O tempo passou, eu mudei e o quarto precisava mudar também. Raspei as paredes, tirei os bijus e pintei tudo com tinta branca misturada com um pouquinho de corante ocre, apagando assim, toda a bicharada.


Como ali era uma despensa, tinha um armário grande que, no lugar das primeiras prateleiras, enfiei o pé da cama e ela ficou meio embutida, o must da época.


Na lateral do armário, colei a grande boca do Mick Jagger com a língua de fora, o símbolo dos Rolling Stones, recortada de um pôster da Revista POP, meio que pra provar que ali naquele quarto não habitava mais nenhuma criança.


A cabeceira, como ficou ao contrário, virou um encosto pra acomodar umas almofadas velhas catadas aqui e ali.


Atrás da cabeceira sobrou um espaço pra um barril de transportar banha, acomodando meus desenhos, enrolados em canudos.


Na parede oposta, uma pequena e velha escrivaninha, com uma cadeira de palha e um gaveteiro, que ao serrar as pernas, ficou na mesma altura da escrivaninha e formou uma bancada comprida.


Pra dar unidade à essa tralha toda: uma mesma cor. Pintei tudo com tinta óleo marrom brilhante, que deu um toque surreal.


O pequeno quarto, entretanto, do qual não tenho uma foto sequer, tinha outros grandes atributos: luz e som.


Duas caixinhas fixadas lá no alto, davam vida ao meu radinho, simulando um som ambiente stereo dos deuses.


A iluminação era o que eu mais gostava nele. Dependendo do momento e do meu estado de espírito, ela variava, criando diferentes facetas do mesmo muquifo.


Pra ler no canto das almofadas, um spot diretamente sobre elas. Formado por um cabo de vassoura com um funil de alumínio na ponta, direcionava a luz, criava um cantinho de leitura muito prafrentex.


Sobre o canto de estudo, outro spot. Este feito com uma luminária velha, parafusada numa alça de marmiteiro em alumínio fazendo um arco, fixada no lambril do teto.


No teto também, uma terceira luminária fazia uma iluminação geral. Era feita com uma lata grande de paio de boca pra baixo fixada no teto.


Por fora da lata, apliquei um papel de presente xadrez que tinha guardado e por dentro, papel alumínio meio dourado que refletia a luz da lâmpada, dando ao quarto todo, um tom âmbar.


A iluminação não parava por aí. Um abajur, feito com outra lata de paio e com o mesmo acabamento da do teto, decorava a bancada. Esta porém, com a boca pra cima, tinha um globo de vidro branco encaixado, que dava um efeito muito legal tipo uma ogiva.


Como a casa era velha e minhas ligações, nem um pouco confiáveis, sabia que não podia ligar aquilo tudo de uma só vez.


Com meu pai doente, tivemos que vender a panificadora e a casa. Em 79, aos quinze anos dispensei minha despensa, trocando-na por um quarto imenso na outra casa, também no Seminário, mas essa já é outra história, também interessante.


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