Primário

Lá no Jardim da Infância, na salinha afastada do prédio principal do Grupo Escolar D. Pedro II, no Seminário, sob o grande pé de Uva-do-Japão, tinha sérias discussões metafísicas com dona Ivone, devido às nossas diferentes percepções da cor da Coca-Cola.


Ela dizia, do alto, alto dos seus um metro e cinquenta, com salto, que o refrigerante era preto e eu discordava, do alto da minha impertinência, afirmando que não: que era vermelho e que só bastava olhar contra a luz pra ver e confirmar o que eu afirmava.


Com tempo bom, o último quarto da aula era realizado no pátio. O recreio já tinha ocorrido e todo aquele espaço era todo nosso.


O pátio era dividido em dois. A parte mais baixa com ladrilhos de concreto bem curados e brilhantes, com quadriculado miúdo que lembra um waffle e a outra parte, de areia que seria, quatro anos mais tarde, o campinho onde joguei minhas únicas partidas de futebol.


No tempo de dona Ivone, entretanto, era na parte mais baixa que gostávamos de ficar, ou nas rampas laterais, formadas pela escadaria do fundo do colégio, onde colocávamos areia, pra deslizar por elas. Tornando um local proibido, pra evitar ossos quebrados.


Voltando à parte mais baixa do pátio, levávamos nossas cadeirinhas de madeira, cada uma de uma cor, e sentávamos ao redor de dona Ivone, também sentada numa.


Ela, com uma cesta com cartelas previamente desenhadas e furadas, ia nos dando os materiais: linhas coloridas, agulhas e botões, pra que costurássemos e bordássemos nas cartelas de cartolina.


As ilustrações eram coisas como: carros, barcos, casas e bichos, onde íamos, com a agulha e linha, desenhando seguindo os furos. Os botões eram usados pra fazer o olho de um peixe ou o centro da calota de um carro.


A coordenação do material, como as linhas coloridas, era feita com esmero por dona Ivone, que não exagerava no comprimento dos fios, o que nos levava a ficar esperando pelo próximo pedaço.


Lembro que paciência não era nosso forte e ficávamos ali, em volta dela, que nem passarinhos no ninho, esperando sua minhoca, piando: dona Ivone já tô esperando a linha há uma semana...e eu dona Ivone, faz um mês. Outro dizia: dona Ivone, tô esperando meu fio, já faz um ano..


O que não compreendo, é como coisas como essas, que aconteceram há tanto tempo, podem ainda ocupar lugar em minha cabeça, fazendo viajar e reviver coisas que já vivi, mas ainda as sinto. A mente é mesmo um universo. Sinto que mesmo cheia, ainda cabe mais coisas...


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