Pramim

O meu pai era paulista, minha mãe, siqueirense, meus avós paternos, andaluzes e os maternos, mineiros.


Tive oito bisavós, dezesseis trisavós, trinta e dois tetravós, sessenta e quatro pentávos, cento e vinte e oito hexavós, duzentos e cinquenta e seis heptavós, quinhentos e doze octavós, mil e vinte e quatro nonavós e dois mil e quarenta e oito decavós.


São muitos entes do passado envolvidos na minha vida. Melhor ficar restrito aos únicos avós que conheci: meus avós espanhóis da pequena cidade de Velez de Benaudalla, perto de Granada.


Meu avô, Antonio Estevam, trabalhou duro na agricultura de dia e com irrigação à noite, pra conseguir casar com minha avó. Como ficava cansado, ele dormia no serviço. Quando a água alcançava seus pés e o acordava, é que estava na hora de ir cuidar de outro ponto da irrigação.


Quando eu era criança ele já tava bem velhinho, doente, acamado e esclerosado. Certa vez ficou internado em Curitiba, no Hospital Nossa Senhora da Luz, aquele com infinitas casas de pombo no muro e fomos visitá-lo. O muro trata de me lembrar disso, cada vez que passo em frente.


Quando tava com saudade do seu sítio, ele sumia. O encontravam caminhando, no meio do pó, pela estrada de terra, com seu relógio de parede sob o braço, a caminho do Alecrim. O relógio, tá hoje na casa de minha prima Manuela, a Neninha, em Maringá. É este na foto enviada por meu primo Francisco.


Lembro da casa, do quarto escuro, das janelas com vidros martelados coloridos, que lembravam os vitrais de uma igreja. Esses dias soube que “moramos” naquela casa, só quando antes de eu nascer.


Ele no fundo da cama, na penumbra. Sua voz mais no fundo ainda, perguntava: quer um Repelom? A gente dizia: quero, vô! Ele dava uma leves cutucadas com os nós dos dedos na nossa cabeça e ia baixando, passando pelo rosto, até o peito e voltando e acabando no nariz, dizendo: Repelom, Repelom, Repelom, Pim, Pom! Ganhou um Repelom... E por isso, nosso grupo no Whatsapp se chama Família Repelom.


Minha avó, Encarnación Robles, casou-se e logo depois veio pro Brasil. Tava grávida e perdeu o bebê na travessia do oceano. Na Espanha ela colhia azeitonas. Era uma mulher esperta, inteligente e ótima cozinheira.


Quando eu trocava Curitiba por Siqueira Campos, nas férias escolares, todos, antes de me dar boas-vindas ou bom dia, me perguntavam: Já foi ver a vó? É claro que eu gostava dela, mas havia tanta coisa a ser feita...


Quando chegava em sua casinha, sempre encontrava tudo limpo, brilhando, uma toalha oleada com frutas coloridas sobre a mesa e no canto, uma ânfora de barro, um prato de porcelana, servindo de tampa e uma caneca de alumínio pra pegar a água mais saborosa e fresca que se possa imaginar.


Mesmo com a idade, ela era uma espanhola muito bonita, o cabelo sempre preso num elegante coque, nos pés, sapatilhas multo coloridas que enrolavam quando descalçadas.


Eu dizia: benção vó, é o Renato. Ela me encarava e cerrava os olhos, tentando vencer a catarata: Quiém? Renê? Não vó, Renato... Renê? Não vó, o Renato, filho do Manoel...Ah! Mi Renato querido!!! Como estás?? e me abraçava forte, como quem encontra, o que tava procurando...


Era o preço de ser um piá curitibano, não morar na cidade e aparecer por lá, somente nas férias...


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