Paulo, Meu Irmão

Atualizado: 16 de abr.

Família é mesmo uma coisa engraçada. Todos muito parecidos mas, paradoxalmente, muito diferentes entre si, morando por um tempo, num mesmo espaço.


Tinha completado quatro anos que havíamos perdido o Gusto, mas era no Paulo, meu outro irmão, com quem sempre tive dificuldades reais, que me agarrava a pensar de vez em quando.


Inteligente, criativo, habilidoso capaz de criar e fazer qualquer coisa, acabou não fazendo nada.


Sempre atraído por coisas antigas e velhas, passíveis ou não de conserto, como um modesto Galileu Galilei, tinha transformado parte da casa dos nossos pais, num laboratório pra suas infindáveis experiências.


A atração por motos, carros velhos e muitas outras bugigangas acumuladas, acabou virando uma triste doença.


Também gosto de coisas antigas, e poucas coisas temos em comum, mas receio trilhar por um mesmo caminho um dia.


Nossa grande diferença de idade, quando criança, era um abismo, pois aparentava ser ainda maior.


Sentia medo dele pois nunca sabia o que passava em sua cabeça e também porque ninguém podia imaginar qual seria sua reação às coisas mais banais.


Uma chave de fenda fora do lugar, numa tarde, por exemplo, foi o motivo pra atear fogo em duas caixinhas de som que tinha acabado de ganhar do meu outro irmão. Impotente, as vi sendo arrancadas do teto onde, com dificuldade, eu as tinha fixado e depois arderem no fogo obediente da churrasqueira.


Ao contrário das boas novelas e dos filmes ruins, ninguém é totalmente bom, nem totalmente mal. Quando eu era criança, ele gostava de caçar e também de me levar junto pro mato.


Fez pra ele, um distinto boné de Daniel Boone com pele de raposa e um, com pele de coelho, pra mim.


Detestava ter que ir no mato caçar, mas confesso, adorava aquele chapéu de caçador. Usava, com gosto, até fora das caçadas.


Uma vez, quando o mundo sonhava com um Walkman, sem mais, nem menos, chegou em casa com dois. Um pra ele e outro pra mim.


Se ainda tô por aqui hoje, devo isso a ele. Numa linda tarde de sábado, quando adolescente, fiquei no quintal, sob o sol, lendo e escutando música no tal aparelho.


Távamos só eu e ele em casa. Entrei, peguei uma maçã e me sentei ao seu lado no sofá.


Só lembro da maçã rolando pelo chão, minha boca entortando e minha cabeça virando pro lado, tal a clássica cena do Exorcista.


Tombei no tapete e depois, quando acordei, tavam todos ao meu lado, assustados no chão, inclusive Zito, meu irmão médico, que me disse: você só tá vivo, porque o Paulo fez todos os procedimentos necessários pra salvar sua vida. Você teve uma convulsão.


Há dois anos tal abismo entre nós estreitou um pouco.


O tempo tinha esfarelado nosso passado e desidratado nosso presente, mas eu sabia: no meio desse farelo todo, ainda éramos irmãos, filhos dos mesmos pais e que até o fim, devia a ele a prorrogação de minha estada por aqui.


Tava nos meus planos, uma visita de supetão na casa de repouso onde ele finalmente tava. Um surto o fez parar num hospital e isso fez com eu e os outros irmãos nos aproximássemos dele novamente.


De volta à casa de repouso, seguiu sua vida, ora bem, ora nem tanto. Até que seu estado de saúde se agravou e, no início da pandemia, ele se foi. Entre mortos e feridos, ficou a saudade e um sentimento estranho, tão estranho quanto era nossa relação...


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