Paisagem na Janela

Conheço muito pouco de Minas Gerais. Talvez um oitavo do centro de Belo Horizonte e um quarto da Pampulha, ou seja, quase nada.


Minha cidade natal, Siqueira Campos, no Norte Pioneiro do Paraná, quando nasceu, se chamava Colônia Mineira. Nasci lá e com catorze dias, já era um piá curitibano.


Sinhana, minha vó materna, que nem conheci, as histórias e receitas de minha mãe e, tenho certeza, minha alma, são, mineiras.


Sinto saudade de quando passava as férias em Siqueira e pode parecer pretenção, mas sinto saudade daquilo tudo que nunca vivi pelas ruas das cidadezinhas antigas de Minas Gerais...


A música tem o poder de criar e recriar mitos, fazendo-os ressoar no corpo, na mente, no coração e no espírito.


Os mitos da mineiridade têm muito a nos dizer através de músicas, como a canção “Paisagem da Janela”, que além de uma linda melodia, é um veículo de diversos mitos mineiros.


O fato de seu significado ser meio vago possibilita diversas e amplas leituras. Segue uma delas:


“Da janela lateral do quarto de dormir”


O quarto de dormir é o espaço onde nos afastamos da correria do mundo. Um local de contemplação e de sossego. Ali, nossos problemas e o caos urbano, ficam pra trás. Nossa vida é correr atrás das coisas, ter metas, sonhar e tentar realizar algo, mas sem um momento de reflexão, qual o sentido de tanta conquista?


Pra mim e pra muita gente, Minas Gerais representa isso: Um espaço bucólico, interiorano, um lugar de repouso, um refúgio no meio das cadeias de montanhas, de onde a gente pensa na vida em meio ao aroma do alecrim e do fogão de lenha, degustando um copo de leite fresco, pão de queijo quentinho e café passado na hora.


A vida aponta pra frente, mas o vento que refresca, vem da janela lateral.


“Vejo uma igreja, um sinal de glória. Vejo um muro branco e um vôo pássaro. Vejo uma grade, um velho sinal”


Igreja, muro, grade, velhos sinais. Obras forjadas por mãos humanas, mas que arriscam “um vôo pássaro”. Voam pela nossa mente, nos trazendo sinais de glória.


Casas antigas, praças, ruas, calçamentos e cidades, assim como o sangue que nos é legado de geração em geração, formam nosso patrimônio, que nos fala de onde viemos e também evocam profecias e podem dizer pra onde vamos. O patrimônio é nossa identidade.


“Mensageiro natural de coisas naturais”


Os mitos da mineiridade falam muito dessas tais “coisas naturais”. Só o mensageiro natural pode falar das coisas naturais. Os “falsos profetas”, dos quais o Apocalipse alerta, surgem a todo momento, e querem vestir as maiores atrocidades como sendo coisas naturais.


“A violência é natural”, brada um. “A pobreza é natural”, vocifera outro. “Compre isso”, “você precisa daquilo”, “faça desse jeito”, dizem os slogans publicitários. A voz do vento, o reflexo das águas, a direção das labaredas: nada disso quer te convencer de nada. São o que são, são naturais. São os genuínos mensageiros.


“Quando eu falava dessas cores mórbidas. Quando eu falava desses homens sórdidos. Quando eu falava desse temporal, você não escutou”


Será que a sociedade vem ouvindo esse chamado dos mensageiros naturais? O que foi feito depois das cores mórbidas das enchentes, dos tsunamis, das catástrofes naturais, dos buracos na camada de ozônio, das doenças do corpo e da mente?


Quem são os homens sórdidos: os que fazem a tragédia ou os que a ignoram o temporal? Não podemos dizer que não fomos avisados. É honesto admitir que nós não escutamos.


“Você não quis acreditar. Mas isso é tão normal”


Sim, é normal. O que é natural, pode não parecer normal para os olhos já empaturrados de informação processada, do excesso de dados culturais.


“Cavaleiro marginal lavado em ribeirão. Cavaleiro negro que viveu mistérios. Cavaleiro e senhor de casa e árvores. Sem querer descanso nem dominical”


Seria um mito arturiano ressurgido nas Minas? Um membro de távola redonda ou irmandade religiosa; um Lancelot-tupiniquim-cristão-novo; lavado pela Senhora do Lago de Furnas; banhado pelo Ribeirão do Eixo de Avalon; que viveu mistérios insondáveis nessa Camelot-Gerais; configurado em senhor de engenho, casa e árvores; um trabalhador honrado e incansável?


“Cavaleiro marginal banhado em ribeirão. Conheci as torres e os cemitérios. Conheci os homens e os seus velórios”


Ou seria um Merlin; um Viramundo; um décimo-terceiro profeta sem nome; maltrapilho errante; que em suas andanças através dos séculos pôde observar torres e cemitérios; e a ascenção e queda dos homens?


“Quando olhava da janela lateral. Do quarto de dormir”


Ao olhar da janela lateral, todos podemos assumir esses mitos que existem dentro de nós. Podemos ser os magos e guerreiros da nossa própria vida. Todos os sinos, cemitérios e igrejas de todos os tempos e espaços do mundo vivem em nós, em nossas moléculas, no pó de que viemos e no qual nós voltaremos um dia.


Paisagem na Janela | Fernando Brant e Lô Borges | Adaptado do texto original de Rafael Senra.


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