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  • Luiz Renato Roble

Os Vizinhos

Nos casamos e fomos morar numa mínima rua no Água Verde, com o nome mais comprido que ela, Travessa Rafael Francisco Greca.


A sala e os dois quartos do pequeno e adorável apartamento tinham janelões totalmente voltados pra linda vista da então vastidão oeste.


Quando chegávamos, no fim da tarde, raios de sol escapavam por debaixo da porta e aquilo tudo era muito bonito.


Por outro lado, durante o dia era tanto sol e calor, que pra podermos estudar, só com um estando na minúscula cozinha e o outro no banheiro. O por-do-sol, entretanto, fazia valer a pena.


Os vizinhos do mesmo andar eram bacanas. Do outro lado havia o Asterix (que pra ficar completo, só faltava o chapeuzinho) com sua mulher e uma linda filhinha bem loirinha mesmo. Do nosso lado, o simpático seu Silvio com sua filha desalmada, esganiçada e chata.


Certa noite a gritaria da moça era tanta, que com dois copos encostados na parede, conseguimos decifrar: Mas papai! Você tá louco!! Comprar um aspirador de pó deste tamanho pra limpar este apartamentinho!! No dia seguinte, seu Silvio nos ofereceu um negócio da China. Compramos o objeto da discussão e minha sogra ganhou um belo eletrodoméstico de presente.


Num sábado à noite, saindo de casa, nos deparamos com algumas malas no corredor e a filha chata sentada numa delas com cara de bugio.


Perguntamos se precisava de ajuda. Contou que tava sem a chave e se podia usar nosso telefone. O celular ainda não tinha sido inventado.


Assim que ela entrou, a porta do elevador abriu: Era seu Silvio, com cara de sapeca, chegando com a namorada portuguesa, como se levasse uma garrafa de Champagne imaginária sob o braço.


Ele perguntou, como sempre, muito simpático: Vão viajar? Respondemos: Não, é a sua filha... Ele então disse tranquilamente: Não, minha filha não está. Está fora, viajando... Então Dissemos: Não, ela voltou... E está aqui em nossa casa, telefonando...


Nisso, ele levou um susto com a aparição estridente entre nossos umbrais. Os três entraram, fecharam a porta e com certeza, não naquele clima e com o sabor planejado.


Depois que nos mudamos de lá, nunca mais vimos seu Silvio, aquele pobre homem. Tão probo, tão reto e simpático. Aparentemente, não merecia aquele castigo. Vai saber...


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