Os Bons Companheiros

O Thomas é meu oitavo companheirinho. O finado Billy, cujo verdadeiro nome era Billy Segundo, foi meu sétimo companheiro. Ele era o substituto do Billy Milk, o original e sexto da lista, quase esquecido por uma rápida reposição. Os dois, infelizmente, morreram afogados na piscina. O original, com um ano e meio e o segundo, já velhinho, com catorze anos.


Quando criança tive uma Pequinês chamada Suzi. A primeira de minha lista, era muito carinhosa, me acordava de manhã lambendo meu rosto. Quando morreu atropelada, seus olhos, que já eram arregalados, saltaram fora das órbitas e eu vi a cena. Aquilo me fez chorar por uns três dias e três noites.


Depois disso, tive três cachorrinhos de uma vez. O mais velho e mais sério deles, o Moe do trio, era o Lulu. Um Fox preto com manchas marrons. Curtia sertanejo de raiz, saído do caixão de abelha do meu irmão, Paulo. Quando chegou sua hora foi pro ostracismo, todo rabugento, coitado. Gastei litros de remédio amostra grátis, mas não consegui curá-lo.


O Curly do grupo era o Tico. Não era só pateta, era louco de pedra. Ganhei o infeliz ainda filhote, dentro de uma caixinha de papelão. Foi atropelado tantas vezes, que em cada sobrevida, ficava ainda mais pirado. Era o terror dos carteiros. Os detestava. Os pobres saíam de casa com as calças rasgadas. Imagina isso hoje. Iríamos todos presos.

Se chamávamos o Tico pela esquerda, ele olhava pra direita e vice-versa. Era vira-lata, pitoco e levemente vesgo, o que aumentava substancialmente sua expressão insana. Evidentemente o Tico morreu atropelado pelo Rua XV Barigui.


O terceiro cavaleiro, o Larry, era o Banzé. Um nome muito apropriado. Além de realmente parecer com o filhote da Dama e o Vagabundo, ele não valia nada. Era o pesadelo do bairro, estava em todos os lugares ao mesmo tempo, sempre arrumando confusão.


Certa vez, foi andando atrás de mim pro Colégio Paranaense. Não satisfeitos com as aulas matutinas, os irmãos tinham inventado aulas vespertinas. Pra quem já tava tendo aula desde às sete da manhã, ter aulas de matemática, física e química à tarde era uma maravilha... Ciente disso, deixei que o Banzé fosse atrás de mim. Pensei que seria divertido...


Ele me acompanhou pela rua, pelo jardim frontal, pelo pátio, pelas escadarias, pelos corredores até entrar na sala de aula junto comigo.


Aquela tarde era química. O professor, o finado e querido Bonifácio. Um japonês de um metro e trinta e cinco, muito irritado, mas com um coração maior que ele, o que não era muito difícil.


Quando a galera viu o infeliz do cachorro entrando na sala, começou a gritar. A algazarra fez com que o Banzé se excitasse mais e começasse a correr por debaixo das carteiras. Conforme ele corria as meninas subiam nas cadeiras para aumentar a dramatização do ato.


O Bonifácio saltitava gritando, numa espécie de polichinelo, pedindo que todos se acalmassem. Ele juntava os dois dedos apertando os lábios, dizendo inutilmente: Nem um Piu! Nem um Piu!!


Quando finalmente pôde ser ouvido, perguntou se o animal era meu e por que o havia levado pro colégio. Disse que era meu sim, mas que eu não tinha visto que ele tinha me acompanhado até lá.


O professor, educadamente, pediu pra que o retirasse dali para que a aula pudesse então prosseguir com a aula.


Certa vez os três fugiram e sumiram juntos. Pensávamos que nunca mais os veríamos. No terceiro dia, do nada, entraram correndo pelo portão, eternamente escancarado, cansados, sujos e com fome. Até hoje penso. O que será que fizeram, pra onde foram...


O Banzé foi o último a nos deixar. Após aprontar todas, sumiu e nunca mais apareceu em casa.


Depois de uma década sem um cão, quatro meses antes da Fernanda nascer, ganhei o Ludovico, o quinto de minha lista, no Dia dos Pais.

Coincidente nascido no mesmo dia que o Billy Segundo, o Ludovico, um clássico, adorável e fedido Basset Hound, era uma figura, um grande companheiro, e por isso mesmo, merece um episódio à parte.



143 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo

Frigidaire

Essencial