Os Bêbados e os Socorristas

Caía a tarde feito um viaduto, quando um helicóptero voando baixo sobrevoou nossa casa. É raro passar um desses aviões de rosca por aqui e quando passam, passam rápido, não era o caso desse.


Seu ronco estremecia tudo e o barulho só aumentava. Quando olhei pro céu, o vi descendo no terreno baldio, no outro lado da rua, ao lado da casa de Alfredo, nosso vizinho.


Corri pra janela pra entender o que era, se pane ou algum outro motivo. Na rua, o cordão dos curiosos era grande e Raquel e eu tratamos de correr, pra fazê-lo aumentar ainda mais.


Alfredo, toda sua família e outras pessoas tentavam entender o porquê de toda aquela movimentação que a baita aeronave da Polícia Militar provocava e entendemos que ela trouxe paramédicos que foram correndo fazer um atendimento logo abaixo na rua.

Pensamos que podia ser um acidente e resolvemos descer a rua pra saber o que era e com quem. Logo na esquina, avistamos um caminhão que atravessou nossa rua, preferencial, sem olhar e sem parar, levando junto com ele um carro que descia, pra baterem juntos de cheio num muro.


Descobrimos que não era esse acidente que motivou a vinda do helicóptero. Era um outro, mais pra baixo. Resolvemos descer, quando encontramos o segurança subindo a rua de moto, que nos contou que uma mulher tinha esquecido de puxar o freio de mão e que o carro tinha passado por cima dela. Os socorristas estavam tentando trazê-la à vida. Com isso, desistimos de ir lá.


Falei: nunca acontece nada por aqui e agora dois acontecimentos ao mesmo tempo! Foi daí que ele nos disse: na verdade são três, há dois caras querendo se suicidar, ameaçando pular do alto da torre de telefonia celular ali em cima.


Então, naquele momento, em quatro quadras de nossa rua, havia: um helicóptero do governo aguardando os paramédicos que tinham ido atender a mulher, policiais e bombeiros atendendo o acidente entre o caminhão e o carro, policiais isolando e mudando o fluxo do trânsito das ruas em torno da torre e bombeiros e socorristas, embaixo e no alto da torre, tentando negociar, pra que os rapazes, bêbados, fazendo irreverências mil, cantando e gritando no alto da torre, desistissem de pular e aceitassem descer de lá.


Que sufoco. No final da tarde, veio a confirmação de que infelizmente a mulher que, trabalhando, tinha ido dar banho num cachorro, no condomínio, não resistiu e foi vítima fatal de sua própria van, que passou por cima dela.


A lua já brilhava no céu quando veio a informação de que o rapaz, vítima do caminhão, tinha sofrido apenas machucados leves, nada grave e que os dois infelizes, já à noite, com direito à presença da televisão, decidiram ceder e descer da torre. Dizem que a reinvidicação deles é conseguir emprego.


Vivemos uma tarde incomum, onde a esperança, na corda bamba, em cada passo de uma tênue linha tentou se equilibrar. Infelizmente nem tudo acabou bem e teve gente que partiu.




















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