Original

Há coisas que simplesmente o são. Sem explicação e sem motivo. São o que classifico de originais.


A flanela laranja é uma dessas coisas. Todo mundo a conhece, todo mundo compra, todo mundo sabe que, quando nova, solta tinta e que continua soltando, mesmo quando velha, e mesmo assim, desconhecendo sua origem e conhecendo seus defeitos, ela continua sendo fabricada, distribuída, compraa e usada por todo mundo e ninguém pensa em mudá-la.


Com o sabonete Phebo Odor de Rosas, a coisa é um pouco diferente. Primeiro que a embalagem dele é amarela. Tem história conhecida: foi criado em 1930, em Belém do Pará, quando todos usavam sabonete de coco, dois portugueses malucos resolveram criar um sabonete que continha essência de pau-rosa e mais de cem outros ingredientes, como sândalo, cravo da Índia e canela de Madagascar.


A Phebo cresceu e acabou sendo vendida pra duas empresas ianques, primeiro a Procter & Gamble e depois a Sara Lee, até ser incorporada ao Grupo Granado, fundado, em 1870, por outro português maluco, no lado direito da rua Direita, no Rio de Janeiro.


Desde de 1930, o tal sabonete, além de ter o mesmo odor de rosas, é o mesmo, inclusive com a mesma embalagem, inexplicavelmente amarela, que ninguém pensa em mudar.


Outro que não mudou, ou mudou pouco, é o espelho de moldura laranja. Popular desde os anos 50, criado, sabe-se lá por quem, é vendido em armazéns, supermercados, lojas de produtos populares e por camelôs por todo Brasil.


Fabricado desde os anos 70 pela Pavão Espelhos, de São Paulo, que produz 25 mil peças por dia, o espelho de moldura laranja, que era de madeira e hoje, com o mesmo naipe e mesma cor, é de plástico, é um bom exemplo do que chamo de uma coisa original.


O dono da Pavão Espelhos, até tentou mudar, fabricando o tal espelho de outra cor. Se deu mal: o produto ficou estagnado nas prateleiras. Tudo mundo queria o original.


Não são apenas as coisas que são originais. Há pessoas que são originais. Sempre gostei e admirei Ricardo Boechat. Achava-o autêntico, inteligente, simples, original.


Tive oportunidade de conhecê-lo quando fizemos a digitalização 3D do Jornal da Band, ao vivo, na edição do dia 07 de fevereiro de 2019, uma quinta-feira, infelizmente, apenas quatro dias antes de sua triste e, até hoje, inaceitável partida.


Vi Boechat de perto e conversei com ele. Pude ver que Boechat era tudo aquilo que eu imaginava: um homem íntegro, profissional, gentil, autêntico, inteligente, simples e original. Atrás da vistosa bancada branca do cenário, sobre um simples banquinho, tava seu espelho de moldura laranja. Um homem original.


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