A Vela

Naquela época, pra poder namorar, era de bom tom que uma moça de família, carregasse junto uma vela.


De modo que eu acabei me tornando uma vela de excelente qualidade, ou seja, um grande acompanhante no namoro de Marta, minha irmã, com Eduardo, que viria a se tornar meu cunhado.


Pra que pudessem sair e namorar, minha mãe dizia: pode ir, se o Renato for junto. Assim, foram muitos os passeios, compromissos, missas, excursões e viagens em que, por ser um fator sine qua non, eu tava lá, junto, batendo o cartão ponto.


Na maioria das vezes acabava gostando e aproveitando, já que tudo aquilo era uma diversão e, pra mim, passear, era melhor que ficar em casa.


Mesmo criança, já gostava de observar a cidade, e ser levado de um lado pro outro, permitiu que fosse elegendo o que eu gostava e o que não gostava do entorno, por onde íamos passando. Além de me dar um senso de direção geográfica, essa prática, me deu um senso estético pessoal sobre a cidade.


Comentar positiva ou negativamente sobre o que via era, às vezes, inevitável e lembro que certa vez ao descermos a Brigadeiro Franco, logo depois de passarmos pelo Quartel do CPOR, vi à esquerda um prédio que a Cidadela ou Habitação S.A., não lembro bem, tinha acabado de construir.


O prédio, moderno, com janelas em fita, colunas vincadas em concreto aparente, formando pilotis, com ponto comercial na esquina, teria tudo pra me agradar, não fosse ele, totalmente revestido com azulejos terrivelmente laranjas.


Ao passarmos pelo tal prédio, comentei: - por que colocar um azulejo com uma cor tão berrante e cafona num prédio que poderia ser tão bonito? Quem vai ser o louco de querer morar aí?


Nisso, Vânia e Vanessa, que não eram as filhas de dona Clô, do buffet Marrom Glacê, mas sim, primas do Eduardo, que naquele dia tavam ali no carro conosco, disseram: - o pai vendeu nosso apartamento aqui perto e iremos nos mudar pra este prédio na semana que vem…


É claro que todos riram muito da situação e eu me arrependi de ter dito aquilo e que não sabia onde colocar a cara e que lembro disso cada vez que vejo o azulejado e reluzente prédio e que procuro não falar muito a respeito…



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