O Show

Sempre gostei muito de Zezé Motta, seja como atriz ou intérprete. Naquela época, quando Rosângela, minha prima, que também sempre foi sua fã, e eu, a assistimos cantando no Paiol, eu tinha até pôster seu na parede do meu quarto.


O show, como exige o ambiente do teatro, era intimista. Piano, voz e muita emoção. Zezé, linda num pano dourado amarrado, que ora entrava, ora saía das curvas bem definidas do seu corpo, deixando as pernas e outras coisas livres, cantava profundamente agarrando o microfone com as duas mãos e com os olhos fechados.


A música arrepiante reverberava pelas grossas paredes do velho teatro, até que naquele êxtase ouviu-se uma segunda voz. Um zumbido vindo da escuridão: Zezé, canta Magrelinha...


A diva, é claro, continuou cantando. A voz chapada surgiu novamente: canta Magrelinha, Zezé.


A deusa ignorou, pigarros na platéia, uma sensação incômoda no ar. E como tudo o que acontece duas vezes, pode haver uma terceira, a infeliz insistiu: Magrelinha, Zezé!


No final da música, após os aplausos, a Tigresa falou de soslaio: como alguém consegue falar, enquanto ouve Cartola?


Não consigo esquecer isso e nem a saga da volta pra casa. Ficamos os dois, parados no ponto de ônibus, esperando uma condução que nos conduzisse até o centro. Não apareceu nada.


Em plena adolescência, sem dinheiro pra taxi, sem Uber ou celular, que ainda não tinham sido inventados, a solução foi encarar a noite, o frio e o sereno, e caminhar do Prado Velho até a civilização, pra então pegarmos o Rua XV/Barigui.


Mesmo assim, valeu a pena. Hoje é aniversário dela. Parabéns Zezé, muito sucesso, muitas felicidades e muita saúde!!


Foto | Antonio Guerreiro (1947-2019)


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