O Relógio do Pai

Cresci escutando o tic-tac do relógio de parede do meu pai. Não era tão dramático quanto o de minha vó Encarnación, uma verdadeira e catedrática sinfonia, mas tinha lá seu charme, sua tradição e sua propriedade.


Era um relógio Silco igualzinho ao da foto. Fabricado no Brasil, com caixa de imbuia, tinha maquinário suíço da marca Sorel.


Os relógios Silco foram comercializados por várias décadas e nos anos 40 e 50, era chic ter um, pendurado na parede. A empresa, acabou encerrando suas atividades na década de 80.


Meu pai gostava daquele relógio e todos nós, que vivíamos sob seu badalar, também. Lembro de vê-lo esticado, focando à vista com a parte de baixo dos óculos, acertando as horas e dando corda com a borboleta que fazia trec-trec-trec e ficava encaixada na tampa.


Foi depois de uma noite daquelas, quando meu irmão chegava em casa pra lá de Bagdá, acompanhado de más companhias, que a casa amanheceu silenciosa, sem o relógio, só com o prego solitário na parede.


Aquele vazio entristeceu a casa e principalmente meu pai. Ninguém falava no relógio, só ficávamos olhando o prego e ele olhando pra nós. A falta dele pesava, já que tava ali há tanto tempo, e agora, da madrugada pro dia, deixou de estar.


Aquele silêncio me incomodava e saber que meu pai, apesar de sofrer, nunca poderia repor aquele objeto, piorava a situação.


Assim que pudemos, Raquel e eu, decidimos acabar com aquilo e comprar um relógio pra ocupar aquele vazio no coração do meu pai.


Fomos na Joalheria Aristides, que ficava na Ébano Pereira, em frente às Lojas Americanas e saímos de lá, não com um Silco, mas com um Eska, que era da mesma categoria. Não muito caro, mas confiável.


É bonito dizer que o Natal não deve ser feito de presentes, mas de emoção. Lembrar do meu pai e minha mãe, sentados no sofá, atônitos, sem saber o que significava aquela caixa enorme e pesada, no colo de meu pai, entretanto, foi um momento de pura emoção.


Pensar nos seus olhos brilhantes olhando pra nós, rindo muito e dizendo: - São Jerônimo!!, me faz reviver aquele momento único.


Quando nasci, o outro relógio já tava lá, fazendo parte da mobília. Talvez por isso, aquele passou a ter um outro significado pra mim.


O novo relógio entretanto, não era o original. Era apenas uma reposição. Ninguém, além de meus pais, viu nele, nem a sombra do valor que o outro tinha. Era apenas um sucessor. Um substituto.


Quando meu pai se foi, o relógio ficou pra mim e confesso que vê-lo, tem um valor emocional e simbólico muito forte.


O resto do mundo entretanto, que não viu meu pai, transformado em piá, chorar de felicidade por deixar de ter um prego feio e solitário na parede, não o vê desse jeito, nem de outro.


Quando quero dizer que algo é invisível, irrelevante, ignorável ou insignificante, digo: Tipo o relógio do pai...


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