O Primeiro Beijo

Em uma fria noite de maio de 1982, Raquel e eu começamos a namorar. No momento do nosso primeiro beijo, amigos cantavam Cajuína, de Caetano Veloso, em volta de uma fogueira, no meio de um bosque. Sempre gostei dessa música, mas confesso que nunca compreendia o propósito dela. Um dia, procurando na rede, descobri:


Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina


Cajuína | Caetano Veloso


Caetano Veloso era muito amigo de Torquato Neto, letrista, poeta e jornalista (1944-1972) e do pai dele, embora no momento em que Torquarto se matou, já fazia tempo que não se viam.


Anos após a morte do amigo, a mãe dele teve um sério problema de saúde e foi hospitalizada. Caetano foi visitar o pai de Torquato, mas acabou se emocionando demais no encontro e chorou muito naquele dia, sendo que o pai do Torquato é que teve que ampará-lo.


Eles pouco conversaram naquele encontro e em determinada hora, o pai de Torquato lhe serviu uma Cajuína, o deixou sozinho na sala e foi ao quintal.


Quando retornou, tava com uma pequena rosa nas mãos e a ofereceu a Caetano. Disso surgiu sua inspiração pra música.


Cajuína portanto foi escrita pra Torquato Neto, mas direcionada ao pai dele, além de ao próprio Caetano, tendo como pano de fundo uma reflexão sobre a própria vida:


“Existirmos: a que será que se destina” | O poeta divagando…

“Pois quando tu me deste a rosa pequenina” | Tá falando do momento em que o pai de Torquato lhe deu a rosa pequenina

“Vi que és um homem lindo [...]” | Aqui começam a se misturar as homenagens. O tal homem lindo pode ser tanto o pai (destinatário direto da canção) quanto o próprio Torquato, em uma reminiscência do amigo, sendo que o adjetivo em questão tá fazendo referência às qualidades do tal homem enquanto pessoa.

“[...] e que se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina” | Nesse trecho, a sina do menino infeliz pode significar tanto a sina de Torquato, que havia se matado, quanto, mais remotamente, a do próprio Caetano, que tava muito triste e chorando naquele dia, que tinha ido visitar o pai de Torquato pra apoiá-lo na fase difícil em que se encontrava, com a mulher hospitalizada. Nesse passo, o nos da expressão nos ilumina poderia significar tanto Caetano e o pai de Torquato, quanto um aspecto mais geral, com a intenção do poeta de ter seu poema como uma reflexão diante da vida.

“Tampouco turva-se a lágrima nordestina” | Se é certo que a sina do menino infeliz não nos ilumina (morte do Torquato ou o choro descompassado de Caetano) não melhorou a vida de ninguém, nem do pai dele, nem de Caetano, não modificou aquilo que lhe causou a depressão, tal como o choro do Caetano não ajudou de modo algum o pai do falecido. Ela também não fez turvar a lágria nordestina. Caetano pode tar afirmando que, o pai de Torquato não se iluminou com a morte do filho, mas que também não o abalou a ponto de chorar, no sentido de padecer em sofrimento. Não porque não sofresse com a morte do filho, mas, nordestino, é antes de tudo um forte.

"Apenas a matéria vida era tão fina” | Representa o magro Torquato em um lindo jogo de palavras, expondo a fragilidade da vida, em todos os sentidos possíveis.

“E éramos olharmo-nos intacta retina” | Sendo que toda essa reflexão se deu apenas pelo olhar, já que não trocaram muitas palavras naquele momento.

“A cajuína cristalina em Teresina” | E o que sobra é a cajuína, bebida cristalina típica nordestina a base de caju, em Teresina, representando Torquato Neto, seu pai, Caetano e a própria vida ou tudo isso.

Texto sobre comentários do próprio Caetano Veloso e de Diego Alexandre.


Raquel, te amo.



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