O Presépio

Ter ido pra Araucaria e ter tomado um chá de cadeira, naquela tarde, fez-me lembrar de uma história que eu já tinha esquecido. Logo no começo da faculdade, Gusto, meu irmão, me arrumou uma atividade na cidade.


Era tempo de Natal e a prefeitura local procurava alguém que desenvolvesse junto às crianças da Colônia de Férias da Escola Municipal, uma oficina pra criação e execução coletiva de um presépio em tamanho natural. E o alguém, graças a indicação do Gusto, fui eu.


Descobri qual era o ônibus intermunicipal que me deixaria mais perto do local, o centro esportivo da cidade, onde desenvolveria o trabalho junto à piazada, e lá fui eu.


Chegando lá, fui muito bem recebido pela funcionária destacada pra isso e descobri que a verba destinada ao trabalho era praticamente nenhuma e que o dinheiro que receberia, mal daria pra pagar os ônibus que teria que pegar pra ir e voltar por vários dias.


Tudo bem, pensei. Fui indicado, escolhido e bem recebido e não vou desistir do trabalho só por causa de um simples detalhe. A experiência que terei e o resultado que dará, deverá valer a empreitada.


E assim foi. Durante várias tardes chacoalhei à vontade nuns ônibus que me levavam e traziam por um caminho de curvas e paradas sem fim.


Meu primeiro desafio foi pensar em como construir um presépio em tamanho natural, sem dinheiro e de uma forma lúdica, que as crianças pudessem interagir.


Numa época em que ninguém sabia o que era ecologia, reciclagem ou sustentabilidade, muito menos eu, pensei em algo feito com jornal, material farto na época e que as crianças poderiam ajudar a angariar.


Foi bom, pois eles já se sentiam participantes em levar o jornal. Pedi pra prefeitura comprar arame, cola e tinta de parede e com isso fizemos a festa.


Meu segundo desafio, consistia em conquistar e dominar as crianças desde o início. Não queria que fosse algo como Ao Mestre com Carinho, onde só na cena final, existe um reconhecimento.


Imaginei um trabalho onde as crianças se divertissem, que eu pudesse ensinar alguma coisa e que no final resultasse em algo plasticamente interessante.


Acho que consegui. Boa vontade, jornal, tinta e diversão não faltou e o troço até que ficou bacana no final.


Somos velhas construções que vão sendo feitas por camadas. Mal lembramos o que tem lá por baixo, sob as novas demãos de tinta, mas sabemos que aquilo, no fundo, de alguma forma nos define.


Aquele trabalho certamente deve ter feito com que eu crescesse de alguma forma e, mesmo que nem me lembrasse dele, ajudou a ser quem sou. Pensando bem, lembro do Gusto agradecendo por ter atendido sua indicação e que o retorno que ele teve depois, foi muito positivo. Acho que é por aí...


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