O Pocinho

Atualizado: 4 de dez. de 2021

No Largo da Ordem, no centro histórico de Curitiba, há um bebedouro preservado, onde os carroceiros de priscas eras paravam pros seus cavalos beberem água.


Dizem que havia outros pela cidade. Um segundo bebedouro, pelo menos, posso afirmar categoricamente que existia.


Exatamente igual ao existente, ficava na frente de minha casa, no Seminário, no começo da Bispo Dom José com o final da Nossa Senhora Aparecida, na esquina com a Dom Ático e era a nossa referência.


Se outrora o bebedouro tinha sido muito útil, na minha infância, nos anos setenta, o pocinho, como o chamávamos, já não mais o era.


Naquele tempo existiam carroças, mas era raro ver um cavalo bebendo água no pocinho. Com o passar do tempo a cidade foi mudando, crescendo e o bebedouro ficou ali, na dele, praticamente o mesmo.


Com toda a inevitável alteração no cenário, o poço, além de ponto de referência, tornou-se um acidente geográfico, responsável por alterar os gráficos de acidentes da então pacata cidade.


A verdade é que aconteciam muitos acidentes naquele local, em parte por causa do poço, mas em parte, por causa da curva, até hoje existente, antes de onde havia o poço e em parte, devido a mentalidade da época, que era correr e correr demais, numa época sem ABS, boa suspensão, cinto de segurança e juízo.


Além do poço, que foi perdendo suas pedras, o outro lugar preferido pelos carros que se perdiam na curva, era o muro da minha casa.


Era uma festa! Não falhava uma semana. Era um evento, um bom programa, uma reunião de vizinhos, amigos e passantes.


Não havia comida, nem bebida, só comentários, conversas, dramas e comédias. Tinha gente de roupão, de camisola, de robe. Uma verdadeira festa do pijama!


No dia seguinte, quem não pode comparecer, queria saber dos detalhes, como tinha sido, se houve sangue. Caso não tivesse havido sangue, a pessoa se conformava. Não tinha perdido muita coisa...


Lembro bem de uma festa que me marcou: um TL vermelho, em velocidade de deputado, acabou com nosso muro, abraçou a palmeira e teve o para-brisa catapultado inteirinho sobre nosso gramado. Meu irmão o recolheu.


O pai do jovem motorista, um famoso empresário daquela época, que se dizia o rei daquilo que vendia, exigiu a devolução imediata do para-brisa.


Meu pai, o dono de uma pequena panificadora, garantiu que a peça do carro seria devolvida assim que o muro fosse pago.


O papai do filhinho disse pro rapaz: não se preocupe meu filho, tem mais seis carros prá você bater na nossa garagem.


O filhinho do papai, quando tava indo embora gritou pra fora da janela: aí, seus pés de chinelo!!

Aquele grito ecoa até hoje em minha memória, mas aprendi que do seu jeito, meu pai era mais nobre que qualquer rei. Espero que um dia meus filhos também pensem isso de mim...


Nas semanas seguintes o tal rapaz acabou morrendo num acidente de carro. O muro não foi pago e o para-brisa, por muitos anos, serviu de prateleira no quarto do meu irmão.


Não encontrava uma só foto do nosso finado pocinho, até que Fátima, minha irmã, lembrou de uma, em que ela, à esquerda, aparece ao lado de Ana, sua amiga desde a adolescência, sentadas nele.


Nossa casa, o bebedouro e o bairro do Seminário, como o conhecíamos, não existem mais. Pelo menos a amizade entre Fátima e Ana, continua até hoje, firme e forte, e é cada vez mais linda.


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