O Pindorama

Vicente Galvão, meu inesquecível tio, que infelizmente perdi aos catorze anos, era quem comprava as mesas com antecedência.

A folia de Carnaval no Clube Pindorama de Siqueira Campos começava na sexta-feira, mas antes disso, era um corre-corre danado pra organizar as fantasias dos blocos.

Todos se reuniam lá e era peças de tecidos, risadas, cartolinas, discussões, fitas, dúvidas, colas, músicas e tintas espalhadas pela casa toda.


Lembro de um ano que fomos de Seleção Canarinho, com direito a Mário Américo e tudo.

Era Gusto, meu finado irmão, com uma touca de borracha na cabeça, pintado de preto e com meias pretas nas mãos, já que não havia luvas. Eu fui de técnico, mas, mais parecia um gandula.


Antes do baile, a preparação pra festa. Diversos sacos de papel com confete na parte de cima, pra disfarçar a farinha de trigo escondida na parte de baixo. Tudo pra aumentar o grau de insanidade dos foliões.


Quando criança, o Carnaval só começava mesmo pra mim na matinê de domingo. Não passou muito tempo pra que isso fosse resolvido. Sentia um frio na barriga, pois não tinha idade pra entrar no clube à noite. Ser sobrinho de Vicente Galvão era ter um passaporte à folia.


Fazer parte de um grande bloco, que entrava dominando o salão era fantástico. No clube, uma animada banda tocava marchinhas. Elas até podiam conter preconceitos embutidos nas letras, mas não era isso o que nos dava energia pra pular a noite toda até o raiar do dia.


Hoje as marchinhas são tabu, condenadas pelo tribunal do tempo, mas elas, assim como outras coisas, fazem parte da história, da minha história. Não consigo tirar este saudoso tijolo da base em fui construído, sem desmoronar a construção.


Marchinhas como Olha a cabeleira do Zezé, Mamãe eu Quero, Cidade Maravilhosa, Você Pensa que Cachaça é Água reverberavam pelo interior do Pindorama, ecoavam longe, pelas quadras adjacentes e todos pulavam rodando no sentido anti-horário pelo salão.

Era tudo muito bom aquilo tudo. Parecia que o mundo era melhor. Não havia futuro, nem passado, só o brilho dos olhos do tio Vicente ao ver todos juntos e alegres. Aquele era o momento dele.


184 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo

Frigidaire

Essencial