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  • Luiz Renato Roble

O Motivo da Rosa

Às vezes leio pra Raquel dormir. Naquela noite resolvi ler sobre a produção de E O Vento Levou, surpreendentemente ocorrida há mais de oitenta anos.


Na manhã seguinte, no café da manhã, comentávamos sobre a leitura da noite anterior e do que ela se lembrava. É impossível falar sobre o filme, sem falar sobre Vivien Leigh, a eterna Scarlett O'Hara e o assunto tombou pra esse lado.


Comentei que soube certa vez que a atriz Maria Fernanda, filha da poeta Cecilia Meirelles, contou que a atriz inglesa visitou sua mãe no hospital.


A Maria Fernanda em questão, não é a Cândido, trata-se de outra atriz, mais velha, de voz grossa, e que sempre fazia papéis de mulheres de personalidade forte e ricas, como a que lembro em Nina, de 1977.


Não sabia se ela ainda é viva e não lembrava o porquê, cargas d’água, Vivien Leigh foi visitar nossa poeta em seu leito de morte.


Fui pesquisar e descobri que Maria Fernanda, com mais de noventa anos, ainda está viva, mas nada a respeito de como ela está hoje. Sobre a história da visita à grande poeta, entretanto, descobri como aconteceu.


Numa entrevista à TV Educativa, Maria Fernanda, contou que, nos anos 50, interpretou a personagem de Vivien Leigh em E O Vento Levou, no teatro, numa montagem carioca.


Por conta da interpretação, ganhou um estágio na BBC de Londres e lá, foi incumbida de entrevistar a própria Vivien Leigh. Na entrevista, contou à ela sobre suas peripécias teatrais e elas acabaram se tornando grandes amigas.


Em 1964, Vivien Leigh veio à São Paulo e solicitou aos organizadores do evento que veio participar, que trouxessem sua amiga. Soube que, infelizment, isto não seria possível, porque ela tava acompanhando a mãe, em fase terminal, num hospital, no Rio.


No dia seguinte, de manhã, Vivien comprou um buquê de rosas, pegou a ponte aérea e seguiu pro Rio. Foi até o hospital e enfrentou os porteiros que não a queriam deixar subir até o quarto de Cecília.


Ela conseguiu e quando entrou, a poeta tava dormindo sozinha, pois, naquela hora, Maria Fernanda tinha ido pra casa descansar. Vivien esperou Cecília acordar, deu-lhe um beijo na testa, deixou o buquê num vaso com água e retornou a São Paulo.


A poeta recuperou-se e ganhou uma sobrevida de dois meses. Nesse interim escreveu um de seus últimos poemas, que fala de rosas, como tantos outros que escreveu, e que dedicou à Vivien Leigh, que morreu três anos depois dela:


Não te aflijas com a pétala que voa:

também é ser, deixar de ser assim. Rosas verá, só de cinzas franzida,

mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos

ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,

por desfolhar-me é que não tenho fim.


4º Motivo da Rosa,1964 | Cecília Meirelles (1901-1964)


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