O Impostor

Perambulava pelo centro sozinho e ficava com o nariz encostado no vidro das vitrines das agências de viagens.


Não sabia o que mais me fascinava. A beleza do novo DC-10 da Pam Am, que um dia, quem sabe, me levaria à Disneylândia, ou as incríveis maquetes, onde se via as pessoas, nos bancos coloridos, sendo servidas pelas aeromoças ou simplesmente o sonho de Ícaro, de voar e ver o mundo de dentro de uma daquelas janelinhas.


Entrava, pegava todos os catálogos de aviões e folhetos de viagens e num inútil plano, traçava minhas expectativas.


Sabia que apenas sonhando, não realizaria o planejado, precisava agir, fazer alguma coisa pra realizá-lo.


Sempre soube desenhar. Era o que eu sabia fazer de melhor. Isso era real e participava de todos os concursos de desenhos possíveis e imagináveis, que chegavam ao meu conhecimento.


Num daqueles concursos, o resultado seria anunciado no jornal do meio dia no Canal 12. Minha expectativa era muito grande. Meu desenho do Pato Donald tinha ficado trancham.


Fátima, minha irmã, tinha me ensinado a quadricular, e através dessa técnica, aprendi a ampliar pro tamanho de um cartaz, o que já desenhava com certa facilidade no tamanho de um caderno.


Quando a apresentadora do jornal do meio dia abriu com ênfase, o cartaz vencedor, não podia acreditar. Era um desenho mequetrefe, feio, torto, jogado prum lado, feito por uma criança que não sabia desenhar.


Era muita frustração. Mais uma vez meu planejamento era adiado e meu sonho de entrar num avião a caminho da Disney, evaporava.


Um dia tocou o telefone. Era pra mim, do Canal 4, anunciando que eu era o grande ganhador de um concurso de Contos de Natal.


O prêmio era uma viagem, acompanhado dos pais, com passagens de avião e estadas pagas, pro Rio de Janeiro!


Fiquei estupefato! Não era a Disney, mas era algo quase tão improvável: ir pra Cidade Maravilhosa com meus pais, ficar num hotel chic e, ainda por cima andar de avião, pela primeira vez na minha vida!


Não podia acreditar no que tava acontecendo. Tive que ir à televisão receber o prêmio, fui entrevistado ao vivo e tinha certeza de que nada daquilo podia ser comigo.


A viagem foi mesmo fantástica. Andar de avião, era tudo o que sonhei, com direito à tradicional foto da turbina, numa manhã de inverno, sobre o azul do céu, com a branca camada de nuvens abaixo da barriga do avião da Varig.


No Hotel, de frente ao mar, na Praia do Flamengo, nosso amplo apartamento era com vista pro fundo. Pela primeira vez, soube o que era frigobar, miniatura de garrafas de bebidas famosas e comi castanha de caju que vinha numa latinha metida à besta.


Os passeios foram inesquecíveis. Meu pai, minha mãe e eu, nas nuvens, conhecemos tudo o que se tem pra conhecer no Rio em três dias: Corcovado, Pão de Açúcar e Jardim Botânico.


Fomos até Petrópolis e lá, andamos arrastando os pés pelo Museu Imperial, imaginamos um baile no Palácio de Cristal e descobrimos a criatividade de um gênio, conhecendo a Casa de Santos Dumont.


De volta às aulas, no Paranaense, o professor de Português da segunda série do ginásio, propôs uma redação que falasse de como tinha sido nossas férias.


Fiquei pensando como contaria aquilo tudo o que tinha acontecido comigo.


Pensei em escrever que tocou o telefone e era pra mim, da televisão. Foram me chamar e atendi muito nervoso. Tavam anunciando que eu era o ganhador do concurso de Contos de Natal e que tinha ganho uma viagem, com passagens de avião e estada pagas, pro Rio de Janeiro. Fiquei estupefato!


Não sabia o que fazer. Tremia. Liguei pra Roseli, minha prima em Siqueira Campos, pois somente ela poderia me ajudar no que pensar e no que fazer.


Morávamos sobre a panificadora, no Seminário. Havia um quarto localizado sobre o forno à lenha e não tinha janelas, apenas duas pequenas clarabóias pra iluminação e ventilação naturais. Era uma verdadeira estufa e era lá que minha prima, que morava conosco, estudava pro vestibular.


Lembro que uma tarde entrei e ela, sentada no chão, encostada na parede quente, me disse: tô escrevendo um conto de Natal e meu deu pra eu ler.


Era lindo. Falava de um menino olhando pela janela numa noite de Natal, um ano após a perda do pai dele. Era um texto simples e tocante e me coloquei no lugar daquele menino.


Minha prima atendeu o telefone, perguntei a ela: - que loucura você fez? Acabaram de me ligar da televisão dizendo que ganhei um concurso de Conto de Natal!


Ela começou a rir e desejar parabéns e boa viagem pra nós.


Eu, chorando, argumentei: -quem tinha que ir nesta viagem é você, o tio e a tia. Você é a ganhadora deste concurso. Não eu.


Ela disse, que nem acreditava num resultado assim, mas eu que tinha ganho e que o prêmio deveria ser meu.


Contou que escreveu e enviou no meu nome, pois sabia que eu merecia aquele presente em minha vida. Que era uma forma de corrigir tantas vezes que, injustiçado, deixei de ganhar, por não acreditarem no meu talento.


Eu não sabia o que fazer, não tinha como refazer aquela farsa e com o tempo, me acostumei com a tal ideia.


Comecei minha redação contando que nas minhas férias fiz uma viagem fantástica. Que andar de avião, era tudo o que sonhava. E finalizei falando do Rio, dos passeios incríveis e da ida à Petrópolis.


Ganhei dez na redação e o professor ao me entregar, me perguntou se aquilo o que eu tinha escrito era verdade.


Respondi: - sim professor, o que eu contei na redação é verdade. O que tá escrito, como num sonho, aconteceu de fato comigo.


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