O Gatuno

Em O Príncipe e o Mendigo, filme de 1977, baseado no romance de Mark Twain, o mesmo de Tom Sawyer, Mark Lester, o mesmo de Oliver Twist e, segundo a lenda, o verdadeiro pai dos filhos de Michael Jackson, vive dois papéis: o mendigo Tom Canty e Edward, o Príncipe de Gales, filho de Henry VIII.


Ao terem suas identidades trocadas, o príncipe, a contra gosto, passa a viver a vida do mendigo, e acaba se tornado amigo do espadachim Sir Miles Hendon, vivido por Oliver Reed, ao qual, durante uma determinada cena, passada numa caverna, no submundo, aos arredores de Londres, é concedido o direito de se sentar como lhe convier, diante de sua alteza.


Esse direito é usado, pelo espadachim, na última cena do filme, quando este resolve se sentar displicentemente no chão, durante a coroação, diante da indignação de todos, mas sob a autorização do rei que, tava sendo entronado.


Ter alguns direitos e privilégios outorgados é um dos pequenos prazeres da vida. No Dom Pedro II, sob a batuta de dona Márcia Cavalcante Bezerra, cada um de nós, no dia do aniversário, tinha a liberdade de fazer o que quisesse, dentro de certos parâmetros, é claro.


O aniversariante podia, por exemplo, sair da sala pra ir ao banheiro e passear no pátio ou levantar e olhar pela janela durante a aula, sem ter que pedir autorização à ela, pra fazer esses pequenos gestos de liberdade, que permitia ao aniversariante, ter seu dia ainda mais especial.


Quando participava do BNI, Business Network International, um fantástico grupo de empresários que se reune toda semana, tive inicialmente o cargo de secretário, que tem como uma das funções, ter sempre a preocupação de fazer tudo pra que o presidente possa coordenar a reunião longe de qualquer problema ou interferência.


Com cerca de sessenta à oitenta pessoas ali presentes, é proibido levantar durante as reuniões, a menos que a vontade de ir ao banheiro seja mesmo imperativa.


As reuniões, com café da manhã, acontecem logo cedo, muito cedo. Como secretário, eu tinha que receber a todos e mal conseguia chegar perto da mesa.


O café, e tudo o que o acompanha, fica lá esperando a reunião acabar pra que seja então realmente servido. Todos ficam olhando de soslaio e esperando o término da reunião pra poder finalmente atacar.


A cada semana, dois participantes se apresentam e pra que a projeção tivesse um melhor resultado, era melhor que metade das luzes fossem apagadas.


Nestes momentos então, eu levantava, me dirigia ao fundo da sala, passava pela mesa, roubava sorrateiramente um pão de queijo, apagava as luzes, passava pela mesa novamente, roubava outro pão de queijo e me sentava ao lado do presidente.


Este árduo trabalho era repetido cada vez que alguém se apresentava e eu tinha que cumprir esta difícil missão, que mesmo depois de ter passado o cargo de secretário pra outras pessoas, continuou comigo, até que algum infeliz julgou desnecessário apagar as luzes durante as apresentações.


A sensação de poder fazer algo que ninguém pode, pra mim, é única e indescritível. Quando posso tê-la e vivê-la, por mais simples que seja, como poder surrupiar um singelo pão de queijo, num momento proibido, me remete à cena em que Sir Miles displicentemente se senta no chão durante a coroação de Edward VII e ao que sentia, ao ser o aniversariante do dia na classe de dona Márcia, lá no Dom Pedro || de minha infância. Uma sensação boa.


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