O Gênio da Limpeza

Morávamos no Seminário, na casa recém reformada por meu pai, em frente ao saudoso pocinho, que marcava o final da Bispo Dom José e o começo da Avenida Nossa Senhora Aparecida.


Ao contrário de antes, não havia mais a varanda, pois ela foi incorporada à casa, que agora era vistosa, moderna, horizontal, com os janelões típicos dos anos setenta.


A cozinha era pequena, mas funcional, e tinha, do piso ao teto, belos azulejos dignos deste nome: tinham desenhos mezzo portugueses, mezzo coloniais e eram brancos e azuis.


Era sábado à tarde e Fátima, minha irmã, chegou do Supermercado das Bandeiras, com dois sacos de papel pardo, hoje conhecido como Kraft, repletos de compras. Na época, mal havia mercados, quanto mais sacolinhas plásticas de supermercado, como as ainda usadas hoje.


Eu, um gurizote de nove anos, ao entrar na cozinha naquele momento e ver os sacos de compras sobre o balcão, fui mexer pra ver as novidades.


De cara, encontrei um produto novo, que logo chamou minha atenção. Era o Pin, um lançamento da Atlantis, marca pertence à multinacional Reckitt, que nasceu em 1823 e tá no Brasil desde1924.


Inicialmente a empresa lançou o esquecido alvejante Anil, depois a ainda existente cera Nugget e mais tarde produtos como as, hoje, desnecessárias, ceras Cardial e Poliflor e o atual campeão de vendas: Veja, o limpa tudo.


O Pin era um desinfetante criado pela Atlantis pra brigar com o Pinho Sol, produto americano com oitenta anos de estrada, que no Brasil é produzido e distribuído, sob licença, pela Colgate-Palmolive.


Como um bom tagarela e, desde cedo, um colecionador de jingles, não tive dúvidas: enquanto Fátima guardava as compras nos armários, tirei o frasco de Pin do saco e comecei a cantar e a dançar.


- Eu sou o Pin! O Gênio alegre da limpeza!! E esta é minha nova embalagem!! Se Pin cair, não quebra!!!


Foi neste momento de exultação, que, como via o personagem no reclame sorridente fazer, soltei a embalagem do desinfetante fabricado pela Atlantis ao chão…


É claro que se tratava de propaganda enganosa. Ao tocar o chão, o frasco explodiu e foi Pin pra todo lado. A cozinha nova, imaculadamente limpa naquela tarde de sábado, tinha agora Pin e o forte cheiro dele, pelo chão, paredes, armários e teto.


Não sei se fiquei mais frustrado por o Pin não ser aquilo tudo anunciado na televisão, por ter o final do meu show vespertino arrasado pelo inesperado, ou pela falta de bom humor da Fátima, que me deu uma bronca e teve que limpar toda aquela sujeirada louca da vida.


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