O Estagiário

Vida de estagiário nunca foi fácil. Meu primeiro estágio foi na Exclam Propaganda. Tempos loucos do primeiro Rock in Rio, do Cruzeiro e de uma inflação de duzentos e quarenta e dois porcento.


Época em que todos tinham que congelar os alimentos hoje, pra garantir que os tivessem amanhã.


Um dos grandes clientes da agência era a Refripar, fabricante da linha Prosdocimo, campeão de vendas de freezers.


A campanha da hora era sobre um novo lançamento: um freezer médio. O anúncio, dirigido ao público feminino, traria a foto de um jogador de voley com o slogan: Nem Grande, Nem Pequeno, Muito pelo Contrário.


Se aprovada, a proposta seria contratar um jogador bonito, tipo o Renan, que fazia sucesso entre as mulheres daquela época, pra ser o garoto propaganda.


Pra fazer o layout, entretanto, era necessário uma foto que ilustrasse a ideia. Num mundo sem computador, sem Internet ou um banco de imagens ao alcance das mãos, onde seria possível conseguir a foto necessária?


Em pilhas de revistas! Arrumaram um banquinho e ao lado delas, lá fiquei, no largo corredor, folheando revistas e mais revistas velhas, arrancando as páginas com fotos que julgava serem pertinentes.


Nisso passou alguém e perguntou o que que eu tava fazendo? Respondi: -procurando fotos de homens bonitos pra uma campanha...


Passou outro e perguntou o que fazia - Procurando fotos de homens bonitos. Respondi. Mais um perguntou -Procurando homens bonitos. E outro- procurando homens...


Até que, finalmente, o diretor de arte apareceu, olhou a pilha de fotos que eu tinha selecionado e gostou de uma, que foi a utilizada pra montar o layout da campanha.


Seja em que área for, ter uma boa referência é fundamental. Anos mais tarde, já com minha empresa, quando ainda não havia computador ou Google, nem pilhas tão grandes de revistas pra folhear, tava criando uma vitrine pro Dia dos Pais.


Minha ideia era um avião antigo, daqueles com duas asas, nas cores dos produtos. Mas onde iria encontrar uma referência? Pensei em ir na Biblioteca Pública e fazer uma pesquisa em livros e revistas do acervo.


Távamos almoçando na praça de alimentação de um shopping, quando vi uma garota com uma jaqueta tipo aviador, com desenhos nas costas e adivinhe: de um avião como o que eu precisava, com vista frontal e lateral.


Não tive dúvida, mudei de lugar, pra enxergar melhor e copiei, desenhando num papel qualquer, o que via nas costas da guria, que nem percebeu que tava sendo a portadora da referência que eu tanto precisava. A partir dali, o projeto do avião decolou.


Hoje, num mundo com tantas facilidades, esquecemos de quanto as coisas, que agora são fáceis, simples e triviais, já foram difíceis, onerosas e trabalhosas.


Os que não viveram isso, não têm a mínima noção de como era e, o melhor de tudo, nem tão interessados em saber...


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