O Enxerido

Ao lado do antigo Canal 12, onde hoje é o Castelo do Batel, havia um terreno baldio imenso. Nele, por anos e anos, acompanhei a construção, tijolo por tijolo, arco por arco, da Primeira Igreja Batista de Curitiba.


Um dia, antes de começar a quase interminável construção, na dominação do vazio, um circo foi montado ali. E claro, lá, tava eu.


O típico guri que, além de ter fascinação por circo, sempre gostou de ver as coisas sendo construídas, montadas, finalizadas, pôde passar algumas tardes vendo a estrutura tomando forma e a lona sendo esticada. Até ajudei, buscando água numa torneira no outro canto do imenso terreno.


Acabei ganhando um par de ingressos e convenci meus pais pra irmos ver o espetáculo da estréia. Foi uma noite inesquecível.


Naquele tempo era normal um piá, que morava no Seminário, bater perna no Batel. Até no centro eu ia. Andava e xeretava por tudo. Construções de casas e prédios, por exemplo, conheci muitas. Não sei como é que deixavam...


Quando fecharam o Cine Marajó, no Seminário e construíram a tal galeria, no local do atual cartório, depois de ter inicialmente, a Lets Roller, uma pista de patinação, foi montado um restaurante dançante.


Como era do lado de minha casa, lá tava eu acompanhando tudo de perto. O tom brega começava pelo nome do local, inspirado no filme de 1958 e na canção de Sarita Montiel: La Violetera.


O estilo Kitsch tava em tudo na decoração do ambiente. E eu ali, acompanhando a obra: paredes na cor lilás, cortinas roxas, flores de seda, nylon e plástico em todos os tons de violeta, púrpura, hortênsia e lavanda. Tudo feito com muito amor e carinho pela família inteira.


Fui me enturmando com todos e logo já tava até indo junto na kombi, ajudar a buscar mais adereços e apetrechos roxos pro lugar.


Na época era permitido fumar e os cinzeiros sobre as mesas, eram mãos de gesso, pintadas de lilás, que aparavam poeticamente as cinzas da clientela. Achei aquilo medonho...


Não lembro que tipo de comida seria servido, mas sei que haveria música ao vivo. Ajudei, inclusive, a testar o som, cantando no pequeno palco no canto, Da Cor do Pecado, de Bororó, um samba de 1939, que desde sempre guardo e sei de cor: esse corpo moreno, cheiroso e gostoso que você tem, é um corpo delgado, da cor do pecado, que faz tão bem...


Na noite da inauguração, bem que eu queria tar lá presente, mas não tinha idade pra entrar no recinto. Só tinha idade pra perambular pela cidade descobrindo o mundo.


Não sei como as crianças de hoje, com tanta tecnologia e teoricamente, tanta informação, serão quando adultos. Só sei que eu não seria o mesmo, se não tivesse, quando piá, tanta curiosidade e tanta liberdade pra matá-la.


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