O Calendário

Nasci caçula de seis Irmãos. Pro bem e pro mal, esta sempre foi e sempre será minha condição.


Sendo bem mais novo que meus irmãos mais velhos, muitas vezes tive mais de uma mãe e mais de um pai.


Lembro que Zito, o mais velho dos meus irmãos, sempre teve muita paciência comigo, até quando mexia no seu quarto, minha biblioteca particular, cheio de informativos livros de medicina, com fotos ilustrativas, que matavam minha curiosidade e de revistas interessantes com fotos informativas. Foi ali, por exemplo, que aprendi a entender as piadas de MAD no inglês original.


Sua paciência comigo continuava nas manhãs de sábado quando me levava pra desenhar no calçadão da XV e depois eu exagerava nas taças de morango com nata na Confeitaria das Famílias, onde me levava, de vez em quando, fazendo-o dançar miudinho pra conseguir pagar a alta conta.


Certa vez, revirando a Internet, a biblioteca pública atual, deparei com uma imagem que me transportou a um passado distante, mas ainda muito próximo e presente, pelo menos em minha memória.


Numa bela manhã, Zito teve de ir ao Detran, no Tarumã, resolver um problema e, o que era muito comum, me levou junto com ele pra eu passear. Afinal, seria atravessar a cidade.


Entramos na sala do homem que o atendeu e enquanto eles conversavam, nem pisquei. Havia um grande calendário, tipo pôster, pendurado atrás da mesa do tipo e eu fiquei ali paralisado.


Aquilo era o meu sonho de consumo! Algo que nunca havia imaginado antes, mas que eu não poderia viver sem, a partir daquele momento. O calendário era formado por doze carros da Volkswagem, planificados pra montar através de dobraduras de papel, um modelo pra cada mês!


Eu, que era da turma do recorte, dobre, cole e brinque, fiquei hipnotizado. Quando saímos da sala e chegamos no corredor, implorei ao meu irmão que voltasse lá e pedisse uma daquelas folhas. Era caso de vida ou morte e como um soldado, que na guerra usa todas as suas armas, eu também lutei por aquilo que acreditava.


Como um pai, que compreende a dor do filho, mesmo contra sua vontade, Zito voltou lá, explicou a situação e o homem, gentilmente, arrancou um mês já passado e me entregou o bem.


O carro do mês, parecido com este, um TL verde bandeira, a Chave de Portal que me fez viajar em minha lembrança, era o mais sem graça que poderia haver no calendário...


Isso, entretanto, não tinha a menor importância. A felicidade de sair de lá com aquela folha na mão, a ideia fixa de montar o carro na cabeça e a gratidão de ter um irmão, meio pai no coração, era grandiosa e dura até hoje.



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