O Areial

Caminhar pela Praia Central de Guaratuba, me lembra dos dias e noites que vivi sob aquele céu e sobre aquelas areias.


Apesar de algumas casas ainda serem as mesmas, o cenário no geral é totalmente outro. Naquela época, a Praia Central já era a Praia Central e foi lá, numa noite tempestuosa, que meu primo João Bigode chegou pra montar sua barraca.


Era uma linda e enorme barraca azul. Lembrava uma casa e até desenhos de azulejos azuis tinha, num estilo colonial. O dramático e traumático, contudo, não era a barraca, era mesmo a sua localização.


Haviam outras barracas naquela noite, armadas sobre a grama, que tavam completamente alagadas. A solução: montar na areia! Isto resolveu a questão de imediato. Acontece que choveu somente naquela noite. Ficamos então, as duas semanas seguintes, vivendo sobre o areial.


Minha inesquecível e querida tia Sebastiana, tal qual Fernanda Montenegro em Casa de Areia, tentou, com muito sacrifício, comandar todas os quinze sobrinhos e sobrinhas ali, compactados naquela barraca pra seis pessoas, no meio do nada ou de tudo, dependendo do momento e do ponto de vista.


Pra atender tanta gente, só mesmo muita quirera e muito Ki-Suco. Eu era criança, de modos que detalhes pequenos ou práticos eu não me lembro. Como, por exemplo, vivíamos sem água ou geladeira ou banheiro ou protetor solar ou sem banho, eu, até hoje, não sei dizer.


Era tanta areia, tanta areia, que ao tentar varrer a barraca, certo dia, quebrei a vassoura. Aprendi ali na pele o que é sentir inveja. Ao ver as pessoas das outras barracas, sobre a grama, sob as árvores, com pouca gente na barraca, felizes, tocando violão e sorrindo, enquanto eu sofria...


Pior era ver toda a felicidade daquela gente na praia, que sem mais nem menos, quando dava vontade, iam pra suas casas. Eu pensava: eles têm casa! Eu não... Tenho que ficar aqui na praia, no sol, na barraca, na areia...


Compreendo que o importante é que ter sobrevivido a tudo aquilo me deixou mais forte e principalmente, sem traumas.


Só não me convide pra dormir numa barraca ou sentar sobre a areia fofa. Ah, nem pra comer quirera ou pra beber Ki-Suco. E também, por favor, não pare nem pra amarrar o tênis, na Praia Central...


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