O Apartamento

Uma casa ou um apartamento na praia, definitivamente, não fazia parte dos nossos planos. Acreditávamos que sem uma âncora, estaríamos mais livres, leves e soltos pra irmos pra onde nossa imaginação mandasse, e onde o orçamento deixasse, na hora de nortearmos nossas férias.


O fato de haver um apartamento à venda no prédio de minha irmã, em Guaratuba, justamente ao lado do dela e o insistente conselho de sua sogra, de que fôssemos conhecê-lo, pois tinha certeza de que gostaríamos, nos convenceu a irmos ver o tal apartamento.


O prédio fica de comprido, numa rua que termina na praia. O apartamento que iríamos conhecer fica no primeiro andar, no meio do prédio.


Num tranquilo sábado de inverno, saímos de Curitiba e descemos a serra rumo à empreitada. Raquel nunca havia dirigido na estrada e pensamos que aquela seria uma excelente ocasião.


A viagem foi tranquila e conversamos no caminho que apesar de não estarmos pensando em comprar nada, se comprássemos algo um dia, teria que ser inspirador, com uma vista bonita, não escondido no primeiro andar à meia quadra da praia.


Por outro lado, távamos precisando fazer algo diferente. Pegar a estrada, só nós dois, era o que precisávamos.


Quando távamos chegando, pela beira-mar, vimos o prédio e naquele exato momento, uma placa de vende-se lá no alto. Não era no apartamento que iríamos visitar, cuja dona tava nos aguardando.


Era um outro apartamento, no canto do prédio, no último andar e de frente pro mar. Como tínhamos marcado horário com a proprietária do primeiro, fomos até ela.


Ele era pequeno, escuro e cheio de gatos. A mulher e o marido nos atenderam, falaram conosco e nos mostraram o imóvel deles. Nenhum de nós dois, entretanto, ouviu ou viu nada. Só tínhamos cabeça, pensamento e olhos pro outro, que nem conhecíamos ainda.


Rapidamente nos despedimos, agradecemos e dissemos que iríamos pensar.


Saímos de lá, sacamos o StarTAC e tentamos em vão, ligar pro número anunciado na placa. A zeladora do prédio, incomodada com aquele carro parado na frente, com dois suspeitos dentro, resolveu ir investigar.


Disse que, sábado, naquele horário, não conseguiríamos falar com ninguém da imobiliária, mas se quiséssemos, ela tinha uma chave extra e poderíamos conhecê-lo. É claro que queríamos.


Subimos entusiasmados os quatro andares, já que o prédio não tem elevador, e abrimos emocionados a porta do apartamento.


Parecia a Alemanha depois da guerra, nem reparamos, pois sabíamos que seria necessário alguma reforma.

Corremos à janela. Era fim de tarde e o céu e mar sorriam pra nós um sorriso púrpura dourado, como que pra nos seduzir. Conseguiram.


Já era nosso. Nas semanas seguintes demos um jeito na negociação. Quebramos algumas paredes, demos uma pintada provisória permanente e este canto do mundo foi, por duas décadas, nosso refúgio.


Aquela reforma, sempre fez parte dos planos, mas nunca conseguimos fazer. Quem sabe, este ano, dizíamos. Uma casa ou um apartamento na praia, não fazia mesmo parte dos nossos planos.


Como minha dizia minha mãe: não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Sempre acreditamos que sem uma âncora, estaríamos mais livres, leves e soltos pra irmos pra onde nossa imaginação mandasse, e onde o orçamento deixar, na hora de nortearmos nossas férias. E assim será daqui pra frente. Avante!


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