Nos Tempos do Samba-Canção

Foi no Rio de Janeiro, no final da década de 20, com o fim da Primeira Guerra Mundial, que o Samba-canção surgiu, originado do samba, quando este queria se afastar da influência do Maxixe e do vínculo que tinha junto ao Carnaval.


Com melodias super elaboradas e um andamento moderado, marcado pelas influências internacionais, como o caliente bolero dos cubanos, o pungente tango dos argentinos e a sonora balada dos yankees, o Samba-canção contava com arranjos orquestrais envolventes e grandiosos.


Numa época em que as pessoas, se vestindo com roupas mais soltas, gostavam de chacoalhar os esqueletos em grandes salões, ele se mostrou perfeito.


Centrado em temáticas que envolviam o amor, a solidão e principalmente a dor-de-cotovelo, o Samba-canção teve seu apogeu entre as décadas de 40 e 50, onde compositores como Ataulfo Alves, Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, criaram grandes sucessos como Pra que Mentir, As Rosas Não Falam, A Flor e o Espinho e Errei Sim, nas vozes marcantes de intérpretes como Jamelão, Maysa, Ângela Maria e Elizeth Cardoso, a Divina.


Em 1946, o presidente Dutra proibiu os jogos de azar no Brasil. Com o fechamento dos cassinos um novo ambiente foi descoberto: as boates, onde as apresentações. antes grandiosas, passaram a ser feitas na penumbra, gerando intimidade e romance. Copacabana, por sua vida noturna intensa de boates, tornou-se um dos principais redutos do Samba-canção e nomes consagrados em outros estilos, como Ary Barroso, com Risque e Lamartine Babo, com Serra da Boa Esperança, arriscaram-se em Sambas-canções.


As letras, cada vez mais pessimistas, existencialistas, melancólicas e desencantadas com o mundo, fez com que o gênero fosse chamado de Música de Fossa.


No final da década de 50, com o final da Segunda Guerra Mundial, novamente surgiu uma tendência de mudanças e nasceu então, aqui e ali, a Bossa Nova, que como diz o nome, trouxe algo de novo, fazendo com que o Samba-canção fosse perdendo terreno dentro da música brasileira.


Assim como houve mudanças na música, outras mudanças foram acontecendo no comportamento das pessoas, como na moda. As calças de alfaiataria, por exemplo, que permitiam aos homens ficarem com tudo solto, foram, pela influência do Jazz e do Rock, substituídas por calças de brim ou jeans, mais rígidas que as calças antigas.


As cuecas usadas até então, que enrolavam na coxa quando alguém tentava usá-las com os novos modelos de calças, foram substituídas, pelos mais jovens, pelas do tipo sunga, mais curtas e justas, que se tornaram populares, como são até hoje, e aquelas mais soltas, que todos até então usavam, foram deixadas de lado.


Alguns heróis da resistência, como os cantores Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves, ajudaram a manter viva a brasa do Samba-canção na música popular brasileira, até que ele fosse redescoberto, regravado e valorizado pelas novas gerações.


O que há algum tempo era jovem novo, hoje é antigo e precisamos todos rejuvenescer. Com o tempo, as pessoas começaram a se referir às antigas roupas de baixo, como Cueca Samba-canção, pois tavam tão fora de moda quanto a música.


Orlando Silva, Altemar Dutra e outros tantos artistas, insistiram num Samba-canção anacrônico e seguiram sentimentais demais por muito tempo. Por mais conforto que proporcionassem aos sentimentos, foram rotulados de cafonas e mais tarde de bregas. O passado é mesmo uma roupa que não nos serve mais.


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