Noite de Verão

Mesmo no mais quente dos verões, é raro ver uma noite quente por aqui. Ao anoitecer, geralmente, um manto frio e úmido costuma envolver nossa cidade, deixando as noites curitibanas, independente da estação com a mesma cara.


Hoje não. Ao cumprir uma pequena via-sacra noturnica entre redes de farmácias e mercados, me vi num miolo de Santa Felicidade, calmo, silencioso e morno.


A sensação que me deu ao caminhar pela calçada larga, com cara e jeito de calçadão, me transportou pra uma daquelas noites quentes do interior, quando passava as férias em Siqueira, que tinha o calçadão da Rua das Flores, como sala de estar da casa do tio Vicente.


Tomávamos banho, jantávamos e íamos pra rua, onde outros jovens, com cara de banho tomado, saídos de suas tocas pra se reunir naqueles bancos no meio do calçadão, num encontro casual. animado, cheio de conversas, brincadeiras e risadas, sem hora pra acabar.


A brisa quente que senti, ali na rua, hoje, me trouxe também a memória do som metálico da música que vinha do alto-falante instalado numa água furtada no telhado do Cine Pindorama, logo à frente.


Eram normalmente baladas italianas como Non Ho L'eta, Al Dí Lá ou Dio, come ti amo. Elas chamavam os casais, que como em Hamelin, seguiam obedientes a caminho do cinema, passando por nós, uns abraçadinhos, outros de mais dadas e alguns, mais tímidos, com as mãos roçando. Tudo era motivo de comentários e risadas abafadas.


Os sentidos fazem da gente, de gato e sapato. Só por causa de uma inesperada noite quente, fui transportado a um lugar, um tempo e a um sentimento que, agora, só existe em minha cabeça e na de quem puder imaginar como aquilo tudo era bom.



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