Noite de Autógrafos

Certa vez fui convidado a dar uma palestra em União da Vitória, num importante evento do comércio estadual. Quando vi quem seria o palestrante a falar antes de mim, fiquei um pouco incomodado: era o então governador, Jaime Lerner.


Houve um grande tumulto antes e depois da presença dele no local, com direito à chegada e partida de helicóptero e tudo. Acredito que, apesar do alvoroço, consegui dominar a boiada com as unhas e penso que no fim, mesmo com tanta adrenalina no ar, até que fiz uma boa palestra.


Em outra ocasião, haveria um programa de Jazz, numa falecida rádio, onde eu ajudaria a apresentar, com as músicas que havia escolhido. Adivinha quem taria distribuindo autógrafos pouco antes do programa ir ao ar? Ele, o então ex-governador!


Eu também tava lá, em sua noite de autógrafos, na fila, pra cumprimentar Jaime Lerner pelo importante e admirável conjunto de sua obra e claro, por seu livro. Mais uma vez contudo, a presença do grande Jaime Lerner em nada atrapalhou minha vida, só ajudou.


Talvez, ele sentado àquela mesa rústica de madeira, autografando satisfeito seu livro, tenha sido a inspiração pra que eu, um dia, desejasse estar, tal qual ele, naquela mesma livraria, sentado àquela mesma mesa, lançando, um dia, meu livro.


Meu livro, gestado e lançado em plena pandemia, teve que esperar, literalmente, o fim dela pra que tivesse a tão esperada, por todos, Noite de Autógrafos.


Desta vez, Jaime Lerner não atrapalhou em nada. Quem tentou atrapalhar, cinematograficamente, as horas antecedentes, foi Will Smith, ou talvez, Chris Rock, cujo tapa que levou fez splish splash no meu lançamento.


Naquele dia a repercussão mundial, se o tapa, merecido ou não, era da direita pra esquerda ou da esquerda pra direita, atingiu o meio e reberberou, tentando tirar o brilho da minha tão sonhada noite.


Não conseguiu: a noite foi suave, mágica, magistral, transcendental, festiva e fortificante. Me senti nas nuvens, encontrando pessoas que ainda não conhecia, olhando nos olhos de quem há muito não encontrava e abraçando a todos que me desejavam que tudo de bom acontecesse em minha vida.


O que eu queria era isso: poder vibrar e degustar verdadeiramente dos frutos das árvores que plantei, da presença e do carinho dos filhos que a vida me permitiu ter, do sorriso, do companheirismo e do amor da mulher que é metade do que sou e do livro que tive a felicidade de escrever e pude ver ali na mão de tanta gente feliz partilhando comigo aquela noite inesquecível.


No meio daquele ridículo tira e põe de máscaras, quebras mais do que oportunas e desejadas de protocolo, vem a notícia: este sadio martírio tá por um triz, provavelmente, amanhã tudo isso será passado.


Parecia piada que depois de dois anos esperando pra que pudesse ter o direito àquela noite, ela pontuaria, o fim do dever do uso de máscaras num ambiente como aquele, onde o riso era obrigatório.

No dia seguinte, não foi a palestra do governador que tentou ofuscar minha fala, foi a canetada do alcaide que tentou rasurar os autógrafos dedicados na noite anterior, quando ainda ríamos trás as máscaras


Não conseguiu: tentarei, até por auto sobrevivência, carregar tudo de bom que nela aconteceu, cada gesto, cada abraço, cada olhar, cada palavra amiga.


Todo o brilho daquela noite, por mais que soe dissonante, vibrará na minha memória, na minha história. No meu coração. Obrigado.



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