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  • Luiz Renato Roble

No Limbo

O curso de Raquel seria demais e teria uma semana em Barcelona, em maio de 2018. É claro que eu iria junto.


Fiquei encarregado de tudo. Nada foi simples, mas contornamos tudo, inclusive tíbia quebrada, cirugia, recuperação, muletas e outros imprevistos, que não tavam nos planos.


Naquela quinta-feira, o dia solene do tão esperado embarque, descemos no Santos Dumont e pegar um táxi pro Galeão, foi tenso, sob tiros de ovos, nada amistosos, entre taxistas e ubernautas.


A necessidade da cadeira de rodas, pela primeira vez, mostrou-se útil e sob suas bênçãos, embarcamos num táxi e sob muita tensão, conseguimos chegar ao aeroporto internacional Tom Jobim, com a garantia de que haveria uma trégua lá, pra desembarcarmos.


O curso começaria na segunda-feira, assim, teríamos o fim de semana pra conhecer e passearmos por Barcelona.


No guichê da Alitalia, entreguei, feliz da vida, as passagens e os passaportes. A ragazza conferiu e me devolveu: - o passaporte da signora está vencido!


Meu mundo caiu... - como assim, vencido? O avião parte daqui duas horas! - o que posso fazer signore?


Raquel, de longe, na cadeira de rodas, sem escutar, leu pela minha expressão que alguma coisa tava fora da ordem.


Não é porque o visto americano dela vale até o ano três mil, que o passaporte também teria a mesma validade e eu caí nessa cilada.


Fomos correndo pra Polícia Federal. No caminho ficamos sabendo que ficava no outro extremo do aeroporto.


A moça que nos informou, simpática e solícita, nos vendo absolutamente fora de órbita, com um carrinho de malas e uma cadeira de rodas, pra empurrar, sem pestanejar, comprou nossa briga e nos ajudou empurrando a cadeira e nos orientando pelo caminho.


Durante o percurso, descobrimos que Cissa ia pro lado oposto, mas que tava indo conosco apenas pra nos ajudar. Cissa foi um dos anjos que, no meio daquele inferno, apareceu em nosso caminho.


Chegando no outro lado do mundo, conseguimos com que a polícia nos atendesse e por sorte e por precaução, até nossa Certidão de Casamento tava conosco numa pasta.


Com aquele tratamento VIP, se tudo desse certo, teríamos o passaporte pronto no dia seguinte e poderíamos embarcar no sábado.


Deixei as duas ali e voltei correndo, pois precisava resolver a mudança das passagens.


Descobri que a tal mudança na data das passagens seria possível, mas com o módico custo de $1,500.


Chorando as mágoas e cutucando um pouco mais, descobri que a única maneira de não ter que pagar a tal importância seria um atestado médico.


Um atestado médico! É tudo que poderíamos conseguir. Entre pagar as taxas pro passaporte, telefonemas pra secretária do médico em Curitiba, que nos atendeu prontamente, encaminhar e-mails e alguns vaivéns por aquele imenso aeroporto, aparentemente tínhamos feito tudo o que tava em nosso alcance. No final da tarde de sexta, se tudo desse certo, o passaporte seria entregue.


Távamos ainda no mesmo lugar, sem comer, sem ter pra onde ir e sem saber se conseguiríamos embarcar no sábado.


Já tínhamos rido, chorado, brigado e principalmente lutado pra que tudo desse certo a partir dali.


Távamos na Cidade Maravilhosa, tínhamos que ficar ali, no limbo, esperando e portanto, decidimos aproveitar a estada.


Arrumamos no Airbnb, um charmoso estúdio no Botafogo de frente pro mar, que descobrimos ser uma feia e velha kitchenette, que pra ver uma pequena fatia do mar, era preciso quebrar o pescoço pra esquerda.


Fomos passear no shopping, no Museu do Amanhã, na famosa casa rosa de Roberto Marinho, que agora é um moderno museu, sempre com a dificuldade das muletas e, principalmente, com o medo de que alguma coisa desse errado.


Conforme combinado, voltamos ao aeroporto no fim da tarde de sexta pra pegarmos o passaporte.


Descobrimos pelo sistema, que o passaporte tinha realmente ficado pronto naquela manhã, mas que por algum problema na empresa que faz a entrega dos malotes, ele não foi entregue a tempo. Isto aconteceria apenas na segunda-feira.


Novos momentos difíceis. Negamos, brigamos, barganhamos, nos deprimimos, mas acabamos aceitando. Conseguimos um novo atestado médico, garantindo agora, que Raquel só poderia embarcar na segunda-feira. Sei...


Se tudo desse certo, embarcaríamos na segunda, chegaríamos na terça, Raquel perderia um dia do curso, mas não seria o fim do mundo.


Voltamos, trocamos o charmoso estúdio por um hotel, daqueles que não tem erro, não muito longe dali, passeamos pela praia, pela cidade, descansamos e aguardamos, da nossa melhor maneira, até segunda-feira chegar.


Quando o dia solene do tão esperado embarque chegou, o fatídico passaporte foi entregue a tempo e pudemos finalmente embarcar. Aparentemente não houve toque de trombetas, mas pra nós era como se elas estivessem ressoando. Conseguimos!


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