Naquela Praça

Bota castanha de cajú, um bocadinho mais, pimenta malagueta, um bocadinho mais... Era assim, rindo o mesmo sorriso diário, cantando a mesma música do baiano Dorival e batucando ritmado no balcão, que chegava seu Miguel, todas as tardes, na panificadora do meu pai.


Meu primeiro horário era da uma da tarde às três e meia. O segundo, mesmo com uns onze anos, era às nove da noite, horario em que a fechava. Lembro que quando eu chegava à uma da tarde, tudo tava de cabeça pra baixo. A panificadora era antiga, simples e pequena. Pensava: já que não é grandes coisas, pelo menos que seja limpa. No meu horário, ela era.


Ia limpando tudo que via pela frente, enquanto atendia os fregueses. Não deixava nem que colassem cartazes pra evitar poluição visual. Isso numa época em que nem sabia o que era isso.


Gostava de trabalhar no balcão, só não imaginava o quanto aquilo seria importante, pro resto da minha vida. Seu Miguel, que chegava todo prosa, apontava pra prateleira de bolachas e dizia com jeito maroto: Maria, Maizena e a véia Quaker do lado!! Quá, quá, quá!!!


Tinha dona Lizete, professora do Dom Pedro II, que toda vez conferia minha soma. Nunca encontrou um erro. Dizia: piá, não sei como consegue fazer contas desse jeito, com os números todos desalinhados! Soube que dona Lizete faleceu recentemente. Uma pena.


Tinha as irmãs ricas que eram visualmente parecidas entre si, mas que enquanto uma era boa e gentil, como uma fada, a outra era o próprio capeta em forma de madame.


Falando em diabo, tinha uma senhora tão arrogante, que exigia que pegasse o pacote de bolacha da prateleira com o pegador de pão. Cada uma. Parece que já vivia sua própria pandemia.


Os oficiais da Aeronáutica, que moravam nos prédios, ao lado do Marista e na frente do D.Pedro II, todos cariocas pediam: porr favorr, scheiss pãesschinhoss frenscheizinhos bem fressquinhoss...


Nem tudo era calmaria e como o bom marinheiro aprende mais com a tempestade, vamos com os aprendizados. Seu Victor, um senhor bacana, mas gozador, me provocava ao ver meus cabelos encaracolados e, pro padrão dele, muito compridos. Me veja dois pães menininha. No outro dia: me veja três pães menininha. Um dia não aguentei e não demorei a retrucar: menininha é a tua vó! O homem ficou muito bravo, vermelho de raiva e foi, depois, reclamar pro meu pai.


Resultado: no dia seguinte, tive que ir, a contragosto, à casa dele, pedir desculpas. A raiva dele já tinha passado. Ele também me pediu desculpas e nunca mais me incomodou. Passei a gostar muito mais dele depois disso e fiquei muito triste quando faleceu.


Como um pequeno Raimundo Nonato em sua sala de aula ou um Manoel da Nóbrega Junior, no seu banco de praça, aprendi que tinha, diariamente, pessoas de diferentes idades, classes, jeitos e manias à minha frente, precisando de atenção e respeito.


Naquelas tardes ajudava meu pai. Ele, por outro lado, me ajuda até hoje.


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