Nada Além

Em Muito Além do Jardim, filme de 1979, Peter Sellers (1925-1980) é Chance, um homem recluso, limitado e ingênuo, que passa toda sua vida cuidando de um jardim e assistindo televisão, o seu único contato com o mundo.


Quando é obrigado a deixar a casa em que sempre viveu, e finalmente sai do seu casulo, ele encontra um mundo de coisas e pessoas totalmente estranhas a tudo que poderia imaginar encontrar, se assim o fizesse.

Tirando as devidas diferenças, principalmente quanto à televisão, já que o meu meio de contato com o mundo tinha sido até agora o rádio, ou melhor, a música, me sinto um pouco um Chance, plantado em Santa Felicidade.


A rádio que eu ouvia desde sempre não é mais a mesma. Agora é uma mistura nada refinada de locutores da Atalaia AM com uma pitada do clima animadão de uma Caiobá FM, sem falar nas músicas cada vez mais Massa. Essa mudança toda fez-me sair da minha zona de conforto, quebrar paradigmas e navegar por mares virtuais nunca dantes navegados. Confesso que tô gostando e chegando numa velocidade de cruzeiro.


Quando sou obrigado a navegar pelas ruas reais, ainda mais agora, em tempos de cólera, que vem em ondas como o mar, acho tudo estranho, seja aquilo que vejo, que cheiro, que sinto e principalmente o que ouço.


O Uber é um tanto quanto esquisito, o aroma lembra desinfetante e o som ouvido pelo motorista autônomo, mas totalmente subordinado ao GPS, é recheado com um misto de sertanejo universitário com comentário esportivo. Tanto uma coisa como a outra me tiram a esportiva e me fazem, educadamente, pedir pra que aquilo mude ou fique mudo.


No carro ao lado vejo uma garota com a janela aberta, escuta uma música primária e medonha e pior: a infeliz sabe cantar junto com o que toca...


Nas lojas, em geral, as músicas são um convite pra que me retire dali. Como dizia minha mãe: cada quá com seu saraquá e o meu é definitivamente, o meu mundo e nada mais. Volto ao jardim, ao necessário. Muito além é demais...


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