Na Estrada

Sem conseguir dormir, me lembrei de quando tinha que deixar, com muito sacrifício, a casa de Raquel, lá no Centenário e atravessar a cidade, até chegar no Seminário, onde eu morava.


Na minha lembrança, já tinha o Chevetinho 82, branco. Abria o portão, entrava no carro, encaixava o rádio toca-fitas na gaveta, dava ré, botava o cadeado e partia no meio da noite.


Naquele horário, alta madrugada e sozinho, ligava o rádio, que não sei por que, tinha uma sonoridade diferente dos de hoje, num volume alto, e pegava a 277 rumo ao centro.


Tinha um orgulho danado daquele carro, comprado com muito sacrifício, como tudo o que tive e tenho na vida. Um dia ele foi roubado por uns pivetes chapados que o detonaram contra um muro no Juvevê, mas essa é uma outra história, também interessante.


O que me lembrei mesmo, no devaneio notúrnico, além do orgulho de ter aquele carrinho, normal pra quem não tinha nada além dele, era como pensava em nosso futuro. Enquanto as luzes da cidade passavam por mim, imaginava onde moraríamos, se teríamos filhos e como viveríamos a vida toda que tínhamos pela frente.


Ao pensar nessas coisas todas, como também em tudo que precisava fazer pra consegui-las, o rádio ia embalando e dando clima ao clipe. O som que mais me lembra dessas noites era o inesquecível jingle One More Song da legendaria KNX/FM, 93.1 de Los Angeles, a Mellow Rock, sendo traduzido pra 105,5, Ouro Verde FM, Easy Radio: é tarde da noite, o café está passado…


Aquilo, naquele tempo, já trazia uma nostalgia de algo que nem tínhamos na bagagem, misturado a uma ânsia pelo o que ainda não tínhamos vivido.


O engraçado, é que apesar de não ter mais vinte e poucos anos, equivocadamente, pelo que tenho e pelo que sou, é assim que ainda me sinto e fico sem dormir, pensando: como viveremos a vida toda que temos pela frente…


Escute aqui o jingle



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