Não Concordo

Há alguns anos, participei do 1º Encontro Urban Sketchers Brasil, em Curitiba.


Naquela maratona de desenhos, sketchs, croquis e aquarelas, vi, várias vezes, meu trabalho disposto no chão, lado a lado, com os trabalhos das outras pessoas.


Meu desenho ficava ali, por alguns minutos, nu, exposto, sozinho, sujeito a elogios, críticas e ao desprezo de quem passava os olhos por ele e também pelos outros trabalhos ali emparelhados.


Não era um concurso, nem uma avaliação, mas as comparações, mesmo que involuntárias, eram inevitáveis.


Cheguei a lembrar do exame médico coletivo a que somos submetidos na apresentação ao exército, no meu caso na janela em arco ainda existente no canto direito da fachada do Shopping Curitiba, e também das tardes mágicas que vivi como estudante na Faculdade de Belas Artes.


Fiz apenas o primeiro ano e junto com a Universidade Federal. Não era o bom em nenhuma delas, mas as duas eram muito agradáveis de serem, intensamente. vividas .


Como toda rosa tem seu espinho, vamos a ele: havia uma professora de desenho na Belas Artes, rigorosíssima.


Alta, magra e não necessariamente, zangada, apenas enfadada. Chiquetérrima e absoluta nas suas avaliações, obviamente não ia com a minha cara e, claro, nem com a dos meus desenhos.


No final da aula, jogava nossos desenhos no chão e separava-os. Haviam aqueles que ficavam no meio da sala, com boas notas e aqueles coitados, bem próximos aos cavaletes, quase no rodapé, que era onde meus desenhos, por estarem acostumados, se sentiam em casa.


Eis que numa daquelas tardes, a coisa pareceu anunciar mudanças: meu trabalho pousou perto do centro da sala e a ponta do sapato dela deu uma bicuda que o fez ir mais ao centro, na direção da acrópole.


Meu coração ameaçava felicidade, quando, pra minha surpresa, a colega ao meu lado, com a mão no queixo e um certo ar de desdém, falou olhando pro meu desenho: Não concordo...


A professora magnânima na sua decisão, foi lá e deu mais uma bicudinha pro centro.


A infeliz, como uma ave agourenta, repetiu: Não concordo... Não concordo...


Eu pensava: Mas por que essa fia duma égua não vai cuidar da vida dela?


Pela primeira e, pelo que me lembro, a última vez naquela matéria, meu desenho acabou obtendo uma boa nota.


A professora era rigorosa, mas justa. Além da maioria dos meus desenhos, ela não gostava de que tentassem interferir em suas avaliações. Sorte minha.


Aprendi a melhorar e a me superar. E também a identificar de longe, aqueles quem não concordam que coisas boas possam acontecer comigo. Desses, prefiro distância.



97 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo

Frigidaire

Essencial