Musas

Além das samambaias de metro, plantadas em vasos de xaxim e penduradas do teto em macramês de cordas e dos almofadões recheados de micro bolinhas de isopor, jogados pelo chão, onde também ficávamos jogados pelo chão, um outro item tava presente na maioria das casas nos anos setenta.


Reinando soberanos nas paredes de tábuas ou de alvenaria, em variados tamanhos e temas, eram encontrados nas casas e apartamentos de dez entre dez brasileiros: os posters.


Fossem no estilo cool, com fotos em preto e branco, ou psicodélicos, em fotos multicoloridas, havia uma profusão de posters que agradavam os diferentes sexos, estilos, ideologias, religiões e gostos.


Alguns, cresci vendo pendurados nas paredes de minha casa: eram as musas dos meus irmãos. Lembro de um de Claudia Cardinale (1938- ), atriz italiana nascida na Tunísia numa lingerie preta sexy, sentada na ponta de uma cama e outro do rosto da linda Olivia Hussey, (1951- ) atriz britânica, nascida na Argentina, que marcou como a Julieta de Franco Zeffirelli.

Havia um terceiro que me fascinava, pela beleza da mulher e pela triste história, que me deixou perplexo desde aquele tempo e até hoje me dói imaginar. Sharon Tate (1943-1969), atriz americana, brutalmente assassinada, grávida, do seu marido, o diretor polonês Roman Polanski (1933- ) juntamente com mais quatro pessoas em sua casa em Los Angeles.


Lembro de perguntar e perguntar novamente sobre esta história, a meus irmãos, talvez tentando entender o que não tem explicação.


O pôster que eu podia chamar de meu, que decorava meu quarto, não era preto e branco, de alguma musa italiana, inglesa ou americana: era grande, como um bom pôster deveria ser, mas bem colorido, de um menino brasileiro conhecido e querido por todos, numa pose bem incomum: Cebolinha, de calças arriadas, sentado tranquilamente num penico.


Lembro que numa daquelas festinhas de garagem, com lâmpadas coloridas piscando, arregimentadas por Gusto, meu irmão, que escalado como uma espécie de DJ, as controlava, ao som dos plecs, plecs, dos interruptores de baquelite, no meio de algumas coisas pegas da casa, pra que a garagem parecesse menos garagem, reinava no teto, grampeado no forro paulista, meu pôster do Cebolinha fazendo cocô sobre os casais apaixonados


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