Música na Varanda

Esses tempos, enquanto limpava a varanda num domingo de sol, escutava o LP Chico Buarque, de 1978, também conhecido como o Disco da Samambaia, no Deezer.


Escutando e trabalhando na limpeza, enquanto ouvia, viajava nas lembranças. Morava na casa da panificadora, tava na oitava-série e descobria o mundo em plena adolescência.


Ia me lembrando, conforme o disco ia tocando, com a sequência de músicas se repetindo, já que eu tava com as mãos molhadas e não queria ficar mexendo no celular, de coisas que cada uma ia me trazendo.


Cálice, me trouxe a lembrança de um comentário infeliz e racista, que ouvi de alguém, ao descobrir que a bela e inteligente letra era também de Gil, tido pela pessoa, na época, apenas um cara meio amalucado e negro.


Trocando em Miúdos, me fez lembrar do show de Zezé no Paiol, do show que vimos de Francis Hime no Canal da Música e de Raquel e eu lendo juntos Confesso que Vivi de Neruda quando éramos namorados.


O Meu Amor, me levou à porta, atendendo a moça que atendia meu irmão no Círculo do Livro. Aquele dia o livro era pra mim: Ópera do Malandro. Lembrei também de minha alegria ao assistir depois a peça no Guaírão. Pensei em Marieta Severo, que fazia a Terezinha, que faz tempo que não sei nada sobre ela.

Sempre fico meio assim, assim, quando ouço Pedaço de Mim. Zizi descrevenfo que a saudade dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais, me faz sentir uma dor sem explicação. Coincidentemente, naquele mesmo dia recebi uma mensagem com uma linda versão desta música. Raramente a ouço e naquele dia ouvi, várias e depois por coincidência, mais uma vez, de uma forma especial e numa linda versão.


Tanto Mar, neste disco, é apenas instrumental. Devido à censura, em voga na época, a letra tinha sido proibida. Isto me fez pensar em Portugal, nos cravos, nos anos setenta, na minha infância e em tudo que vem acontecendo em nossas vidas, que Apesar de você, fechou com chave de ouro, meus devaneios.


Eu não tava só, meu filho perambulava por ali e também escutava as músicas sendo tocadas na pequena, mas potente caixinha.


Escutava, mas não ouvia. Ele sabe quem é Chico Buarque, é claro. Suas referências, entretanto, acabam aí. Ele não sabe o que significou censura, racismo ou Ópera do Malandro pra mim. Não sabe quem são Zezé, Francis, Neruda, Marieta ou Zizi e outros, e a importância que essa gentarada toda teve e tem em minha vida.


Pra ele, talvez, era apenas seu velho pai escutando um disco antigo do Chico Buarque, numa manhã de domingo, como tantas coisas que o pai dele insiste em curtir por uma vida toda. Quer saber? Talvez fosse apenas isso mesmo...



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