Ludovico

Depois de dez anos sem um companheirinho, meses antes da Fernanda nascer, no Dia dos Pais, mas sem ainda sê-lo, foi que ganhei o Ludovico.


Coincidentemente, geminiano e nascido no mesmo dia que o Billy Segundo, o Ludovico, um clássico, adorável e fedido Basset Hound, era uma figura e em seus dez anos de vida, foi um bom companheiro. Ninguém pode negar.


Quando o escolhemos, no meio de uma ninhada afoita, foi pelo seu comportamento: o último na corrida e o mais atrapalhado pra andar com as longas orelhas no meio das patas. Uma mancha marrom, bem no meio da cabeça, seria o signo que nos indicaria ser ele o nosso Ludovico, quando voltássemos pra pegá-lo, dali uns dias.


Ludovico, cujo nome, obviamente, era por causa do reclame do Auto Center HM, de Hermes Macedo, reinou naquele nosso primeiro ano, morando na edícula, até que, em novembro, Fernanda nasceu.


O céu negro do ciúmes caiu sobre sua cabeça e entre o amor e o ódio, Ludovico, que perdeu seu trono pro neném mais lindo do mundo, não sabia o que fazer pra recuperar seu reinado.


Nosso amor por ele era grande, mas aturá-lo como o Rei dos Turrões, exigiu uma paciência de Jó. As trepadeiras dos muros estavam crescendo. Tinham umas varetinhas pra que seguissem seus caminhos pro alto. Ele arrancava as mudas e varetas e deixava o conjunto na calçada e se sentava ao lado e esperava que eu o visse, como se dizendo: veja o que fiz. Brigue, pelo menos comigo, mas não se esqueça de mim...


Com a Fernanda entretanto, ele era um doce: só olhava pra ela, balançava o rabão e a lambia. Foram meses de brigas e castigos, mas nossa convivência amadureceu: eu, como pai e ele como o irmão mais velho.


Depois, conforme foi envelhecendo, foi tornando-se cada vez mais meigo e bonachão. Com o nascimento do Felipe, além da Fernanda, que também perdeu o trono, quem comeu o pão que o diabo amassou foi ele. O piá puxava seus pelos e suas pelancas e montava a cavalo nele, sem dó e ele, sempre na dele, sem reclamar.


Quando partiu foi muita tristeza, pois mesmo, da porta, sem poder entrar em casa, sua presença na vida das crianças foi intensa e importante. O tempo passou, mas às vezes, quando olho pra porta, ainda o vejo, impaciente, esperando ganhar um miolo de pão, que engolia sem nem mesmo sentir o gosto. Ah, Ludovico...



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