Galope Rasante

Naquele final de junho, em desabalada fuga, partindo da Vista Alegre rumo à Santa Felicidade, tentei regressar ao lar antes da chuva. Não obtive sucesso na empreitada.


Vi o firmamento, de repente, do nada, ficar negro, tal qual as asas da graúna, que transformaram os céus de nossa risonha capital, num quadro sinistro, o qual faltaria a Calderari, tubos de tinta negra pra poder expressá-lo.


Não fraquejei. Vi a fúria dos ventos contorcionando cabos de média tensão, qual caudas de dragões, que ao relarem e chocarem entre si, soltavam línguas de fogo sobre mim e meu, pequeno, porém, cumpridor corcel.


Algumas léguas à frente, deparei-me com outros cabos, estes tombados e inertes ao chão. Num momento de indecisão e temor, calculei com prudência se deveria ou não transpô-los.

Analisei de onde vinham e quem seriam, se de telefonia ou de energia, apostei no primeiro lote e com determinação e valentia, transpus-lhes.


Outros cavaleiros urbanos, montados e estancados com a mesma cautela e apreensão, aguardavam no caminho, na mesma direção, porém em sentido oposto, e também adquiriram coragem de os transpor, já que viram que eu e meu alazão, passamos pela árdua tarefa, incólumes.


Ao chegar em minha morada, recebi, de meu herdeiro e de minha amada, mensagens de que nela, não encontraria a conveniência e o conforto da energia e que a fúria avassaladora do vento ceifou-nos um dos grandes ciprestes frontais, dirimindo nosso par de boas-vindas.


Num triste tempo, em que não mais recebemos ninguém em nosss casa, pergunto-me cheio de tristeza e dor: de que valia?


A boa notícia? A energia voltou, todos estão bem e gozam de boa saúde. Quer mais júbilo e gratidão?


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