Frigidaire

Atualizado: 7 de mai.

Eu ea criança e já era chegado em etiquetas, não que eu fosse bem educado, longe disso, é que eu gostava de rótulos, não que eu fosse preconceituoso, mais longe ainda disso. Eu gostava era de colecionar etiquetas e rótulos de garrafas.


As garrafas de Gasosas Cini e as de Cerveja Brahma, por exemplo, vinham com etiquetas e rótulos de papel. Quando tavam bem geladas e molhadas, os papéis colados nelas saiam com facilidade. Eu os retirava com cuidado pra não os rasgar e colava sem tanto cuidado, formando uma coleção, na porta da geladeira de casa.


Era uma Frigidaire branca antiga como a da foto que achei e roubei. Cresci olhando pra aquela velha geladeira, suas curvas, seu trinco diferentão, sua elegante assinatura manuscrita em relevo em metal cromado e a estranha permissão dada a um pirralho, de usá-la livremente como um Flip Chart particular na cozinha de casa.


Essa liberação talvez tenha contribuído pra que o piá desenvolvesse seu lado criativo, de composição, montando uma coleção de rótulos na porta daquela geladeira que talvez seja, em parte, responsável por ter parido ali, um futuro designer.


Mais tarde, quando nos mudamos pra nossa terceira casa em Curitiba, ela passou por um retrofit, que a deixou nova de novo e com uma nova cor. Seu visual tornou-se mais sofisticado, com um verde garrafa digno, no lugar do branco esmaecido. E eu já não colava mais nada nela.


Estes dias, pensando em nada, lembrei da geladeira e na certa confusão que o seu nome causou em minha cabeça.


A marca do eletrodoméstico era Frigidaire. Frigir em português quer dizer cozer ou fritar com manteiga, azeite ou óleo. Frigir também pode figuradamente, significar transtornar-se, tornar-se perturbado, atormentar-se ou importunar-se.

Este nome Frigidaire, na minha cabeça de criança, significava frio, gelo, geladeira, como quiseram mais tarde, e por que não dizer até hoje, fazer com que eu entenda que frigir não quer dizer gelar, quer dizer esquentar. Isto me perturba um pouco.


São coisas assim, como a porta daquela geladeira, que fazem com que sejamos o que somos, de um lado livres pra fazer o que der na telha e de outro, encucados, transtornados, tentando entender o que não conseguimos encasquetar.



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