Framboesa

Ter um carro hoje em dia significa deixar o trânsito intransitável, o ar irrespirável e ser um indivíduo individualista e socialmente irresponsável. Naquele tempo, porém, significava a conquista da liberdade, independência e principalmente não ter mais que andar em expressos e alimentadores demorados e sempre cheios.

Foi pensando assim, que Raquel, através de uns bicos em desenho arquitetônico e estrutural, traçando casas, pontes, galerias e trincheiras, economizou e poupou cada centavo, até conseguir dinheiro pra comprar seu primeiro carro.

No histórico dia da compra, convidamos um primo, que entendia mais de carros do que nós, pra que fosse junto, ajudar na escolha. Era um sábado de manhã e numa daquelas ruas repletas de carros usados pra vender, saímos pela Vila Isabel em nossa caçada.


Na verdade, o nosso consultor técnico nem precisava ter ido junto, pois contrariando seus conselhos e suas observações e ignorando sua orientações automotivas e suas advertências a respeito dele, nos apaixonamos por um lindo fusca 66 bordô.

Olhando pro lado com cara de malvado, ele nos conquistou. Tava relativamente bem conservado pros seus vinte e um anos de uso.

Um detalhe que ignoramos ou fingimos ignorar, foi a latariaz: era repleta de falhas na pintura, resultando em manchas cinzas, que lembravam sardas. Como se estivéssemos adotando um filhote que manca, era ele o nosso escolhido.


O carro se mostrou bom. Tinha um certo problema na estabilidade do banco do motorista, que obrigava Raquel a dirigir abraçada ao enorme volante, mas no geral, se mostrou cumpridor de suas obrigações.


As tais manchas, entretanto, com o tempo, começaram a incomodar. Os comentários, sempre eles, apontavam, lamentavam, que pena, essas manchas...


Resolvemos agir e, claro, do nosso jeito e dentro de nossas possibilidades: num final de tarde, passamos numa loja de tintas e compramos uma lata de tinta spray bordô.

Chegamos na casa de Raquel, lanchamos e fomos ao trabalho. Na garagem, iluminada por um foco fraco no forro, acabamos com a lata de spray, eliminando todas aquelas manchas.


Terminado o trabalho, naquele lusco-fusco, admiramos o resultado, e pensamos, por que não fizemos isso antes?


No dia seguinte, toca o telefone: Raquel chorava. Eu precisava ir até lá. Quando cheguei, entendi o porquê do pranto: na luz do dia, o fusca agora se mostrava bordô com grandes manchas vermelhas e foscas. Algo como uma framboesa com rodas.

Com o tempo, as manchas foram diminuído, ou nos acostumamos com elas e o fusca mostrou ser um bom companheiro.

Mais tarde, pra sairmos de lua de mel, seria necessário uma revisão no meu Chevette, sem a qual não conseguiríamos pegar a estrada. Pra que pudesse então, naquela semana decisiva, resolver tantos assuntos profissionais e pessoais, o fusca teria que ficar comigo.


Deixei Raquel no trabalho, no Tarumã e fui resolver os tais assuntos. Esse gesto não durou quinze minutos. Ou tava escrito nas estrelas ou pisei muito fundo no acelerador, a verdade é que o motor do 66 quebrou naquele momento, na Visconde com a João Negrão, deixando os noivos a pé.


Devido ao orçamento pra sua recuperação, tivemos que vendê-lo do jeito que tava. Sobrevivemos a esta e a tantas outras coisas, mas lembramos com saudade daqueles dias. Ele fazem parte de que somos hoje.


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